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12/09/2013 - 02h12

A herança mais perversa: Europa ainda enfrenta até 62% de desemprego juvenil

Fonte: Reuters
 
 
Foi com grande fanfarra que Bruxelas anunciou no mês passado o fim da mais longa recessão na história da zona do euro, formada por 17 dos 28 países da União Europeia (UE). Cinco anos depois do colapso do banco americano Lehman Brothers, que gerou a pior crise financeira desde 1929 e arrastou o continente europeu para o buraco, o grupo de países que adotou a moeda única voltou a crescer: 0,3% no segundo trimestre, frente ao trimestre anterior. Um crescimento tímido e tardio: quase dois anos depois da retomada dos Estados Unidos, o epicentro da crise.
 
O desemprego parou de subir nos últimos seis meses. Porém, a mais longa recessão no continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial, porém, deixou sequelas difíceis de superar. A taxa de desemprego ainda está em patamar recorde, de 12,1% em julho. Quase um quarto (24%) dos jovens abaixo de 25 anos estão sem emprego na região. Em países como a Espanha e Grécia, o desemprego juvenil chega a 56,1% e 62,9%, respectivamente.
 
A Europa foi a região mais afetada pela crise, mas dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que, no mundo inteiro, ainda são necessárias 30,7 milhões de vagas para que o emprego retome o nível pré-crise. A melhora recente ainda é tímida. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE, que reúne sobretudo países ricos) informou nesta terça-feira que a taxa de desemprego dos 33 países membros recuou de 8% em junho para 7,9% em julho.
 
Então, o que há para comemorar, agora que a UE saiu do fundo do poço? Não muita coisa, avaliam analistas. Segundo o Parlamento Europeu, 120 milhões de pessoas estão sob risco de pobreza ou exclusão social na UE. E 10% da população do bloco, com 500 milhões de pessoas, vivem em lares onde ninguém tem emprego.
 
— A Europa sobreviveu, mas encontra-se num estado muito ruim — resume o economista Henri Sterdyniak, diretor do Departamento de Economia e Globalização do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas (OFCE), em Paris.
 
O esforço dos governos para reduzir o endividamento público atingiu em cheio o Estado de bem-estar social. E os europeus se veem desamparados e obrigados a enfrentar o desemprego e o trabalho precário. É o caso da arquiteta Carmen Seoane, de 39 anos, que viveu o boom do mercado imobiliário na Espanha e hoje tem ocupações pouco estáveis.
 
— Antes da crise, minha vida era bem mais esperançosa, tinha trabalho, podia ser promovida, alugar uma casa e ser independente. Agora, vivo mais um dia após o outro — afirma Carmen.
 
Na França, Philippe Martin, de 55 anos, foi mandado embora em 2008, depois que a companhia em que trabalhava faliu. Sem alternativa, criou uma empresa de softwares, mas diz que as dificuldades são enormes:
 
— Fala-se muito dos jovens com dificuldades em encontrar trabalho, mas quem passou dos 40 anos sofre bem mais, porque costuma ter filhos.
 
Ex-diretor do Banco Central brasileiro e hoje sócio e chefe de pesquisa da EMval Partners, Paulo Vieira da Cunha diz que as perdas para o mercado de trabalho foram enormes e algumas são permanentes:
 
— Pessoas que perderam o trabalho com mais de 50 anos tiveram a carreira abreviada e isso não volta.
 
Rigor fiscal dificulta recuperação
 
Crítico da política de austeridade imposta pela Alemanha, motor econômico do bloco, o francês Henri Sterdyniak acusa Bruxelas de ter salvo o euro às custas da “construção catastrófica” de novas instituições e regras, como o pacto orçamentário europeu. Desde janeiro, o pacto condiciona a ajuda aos países do bloco em dificuldade à disciplina fiscal, e cria um mecanismo de sanções quase automáticas quando deixam déficits públicos ultrapassarem 3% ao ano. Para ele, é um golpe no princípio de solidariedade que marcou a construção europeia.
 
— Impuseram políticas tão restritivas aos países do Sul (da Europa) que estes se encontram em situação de grande dificuldade econômica. E agora estamos incapazes de criar uma política para recuperar os oito pontos de crescimento perdidos durante a crise, ou de criar uma estratégia para o emprego. É extremamente preocupante.
 
Para o espanhol Juan Ignacio Sanz, professor e especialista em bancos da Esade (faculdade de administração de empresas, em Barcelona), o fim da recessão na zona do euro, sem dúvida, é boa notícia, ele mas vê um grande risco pela frente:
 
— O grande problema é o risco que ainda existe de calote na Grécia. Autoridades europeias não sabem lidar com salvamentos financeiros — afirmou, lembrando da caótica negociação do pacote de salvamento de Chipre.
 
Já Francesco Saraceno, economista italiano do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas (OFCE), diz que “finalmente vemos o fim do túnel”. Há mais de um ano, lembra, não se fala mais em especulação no mercado, “e o tanque de oxigênio do Banco Central Europeu está funcionando para ajudar os países em dificuldade”. Mas ele teme que isso possa não durar: o contexto externo para a Europa não é bom e os países emergentes, como China, Índia e China, desaceleraram.
 
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