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02/06/2015 - 04h49
A recessão chegou. E agora?
Fonte: IstoÉ
Com o encolhimento da economia, no 1º trimestre, e números ainda piores previstos para os meses seguintes, o governo Dilma enfrenta sua primeira recessão. Se não virar o jogo, colocará em risco a principal conquista dos últimos anos: a geração de empregos

Com o encolhimento da economia, no 1º trimestre, e números ainda piores previstos para os meses seguintes, o governo Dilma enfrenta sua primeira recessão. Se não virar o jogo, colocará em risco a principal conquista dos últimos anos: a geração de empregos

A recessão econômica, mais uma vez, bate às portas das indústrias no Brasil. A economia brasileira sofreu uma retração de 0,2% nos três primeiros meses do ano, segundo balanço divulgado pelo IBGE, na sexta-feira 29. O País caminha para encerrar um segundo trimestre ainda pior, com encolhimento de até 1% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com as estimativas dos analistas, o que caracterizará uma recessão técnica. Em comparação ao PIB do primeiro trimestre de 2014, a retração alcançou 1,6%. Os brasileiros passaram a consumir menos nos últimos meses, freando o mais importante motor da economia ao longo dos anos 2000.
O consumo das famílias caiu 1,5% no primeiro trimestre do ano, a maior queda desde o quarto trimestre de 2008, auge do estouro da crise internacional. E agora, presidente Dilma? É o que se perguntam os funcionários das montadoras de automóveis, principalmente do ABC paulista, berço político do sindicalismo do ex-presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores. Na semana passada, a General Motors do Brasil engrossou a lista das indústrias que adotaram planos de férias coletivas entre os meses de junho e julho para se adaptarem à paradeira nas vendas.
A fábrica da GM em São Caetano do Sul interrompeu a produção do dia 1º de junho até o dia 28, com a parada de 5.500 funcionários. Fiat e Mercedes-Benz também pisaram no freio para evitar demissões em massa, algo que já virou rotina no País. “Já estamos em contato com o governo federal e as centrais sindicais para aprovarmos um plano de proteção ao emprego o mais rápido possível”, diz o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan. “A última decisão desejável é reduzir o quadro de funcionários.”
Em palestra na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não comentou o PIB, mas assimilou o golpe. “Temos de tomar medidas para evitar que a economia entre em processo de recessão”, disse, pouco depois da divulgação do PIB pelo IBGE. “Temos de focar nossa energia para voltar a crescer e criar mais empregos.” Entra governo, sai governo, as montadoras refletem os erros e os acertos da política econômica. Desde a sua inauguração, em 1959, a fábrica Anchieta da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, coleciona momentos marcantes de alegria e tristeza, de protestos e celebrações.
Das greves do final dos anos 1970 até os sucessivos recordes de produção de carros, nos últimos anos, o clima na unidade sempre esteve atrelado à conjuntura econômica. No começo deste ano, uma assembleia de cerca de quatro mil trabalhadores surpreendidos com a suspensão dos contratos na volta das férias de dezembro era um prenúncio de que os tempos difíceis estavam de volta. O ato deu início a uma greve que ajudou a evitar, temporariamente, a dispensa de 800 funcionários. Apenas cinco meses depois, com as vendas ainda patinando, a montadora alemã se viu obrigada a paralisar a produção na unidade, deixando 8.000 trabalhadores em casa por dez dias, em maio, reavivando o espectro das demissões.
O cenário de dificuldades não é exclusividade da Volkswagen, nem do setor automotivo. Todo o País está pagando a conta da imprudência fiscal do primeiro mandato de Dilma. “O governo, o PT, eles nunca vão confessar isso, mas quebraram o País duas vezes, em 2010 e em 2014, para ganhar a eleição", afirmou o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, à Folha de S. Paulo. “Foi um crime premeditado, friamente eles jogaram tudo para criar um ambiente de euforia e ganhar a eleição.” O certo é que, sem a perspectiva de aumentar as vendas e as projeções de demanda reduzidas, as companhias de diversos setores tentam se ajustar ao cenário de contração, o que significa, em muitos casos, eliminar a mão de obra ociosa.
O movimento ameaça a última resistência da deterioração recente da economia brasileira: o emprego. Apesar do baixo nível da atividade econômica, a taxa de desemprego vinha se mantendo estável, nos últimos anos. Com um longo período de recessão, o quadro começou a mudar. O índice de desemprego alcançou o pico de 6%, em abril. Um ano antes, estava em 4,8%. A criação de vagas formais caiu. O saldo entre contratações e demissões ficou negativo no mês, pela primeira vez desde 1995, com a perda de quase 100 mil vagas. A expectativa média era a abertura de 44 mil postos de trabalho.
Diante de um cenário mais adverso do que o esperado no mercado de trabalho, a dúvida agora é sobre até onde pode chegar o desemprego e se há risco de o Brasil repetir os exemplos da zona do euro. Em países como a Espanha e a Grécia, as políticas de austeridade elevaram a taxa de desocupação a patamares de até 25%, penalizando, sobretudo, os jovens com menos de 25 anos de idade, faixa em que os índices superam os 50%. Há consultorias que projetam uma elevação acima de 7% no desemprego no Brasil em 2015, cenário que ainda deve demorar a arrefecer, dado que as contratações demoram mais tempo a responder às mudanças na atividade econômica.
Especialistas no mercado de trabalho, porém, descartam a hipótese catastrófica de uma “explosão” de demissões de mão de obra. Diferentemente dos períodos de crise do passado, o Brasil conta hoje com um contingente maior de trabalhadores formalizados e os elevados custos de demissão desestimulam grandes dispensas. Outro ponto importante é que menos pessoas devem ingressar no mercado de trabalho neste e no próximo ano. “A taxa de desemprego não vai explodir porque a população está envelhecendo e os jovens estão estudando mais antes de entrar no mercado de trabalho”, diz Fabio Romão, economista da LCA Consultores.
Uma conclusão ainda preliminar dessa avaliação sugere que o ajuste no mercado de trabalho se dará pela corrosão mais acentuada da renda, fenômeno que já vem sendo observado. Desde novembro do ano passado, a variação real dos salários dos novos contratados registra recuos seguidos. Pela primeira vez, em 11 anos, o rendimento médio do trabalhador brasileiro deve fechar o ano com queda – a inflação, superior a 8% em 12 meses, complica ainda mais o quadro. A expectativa é de um recuo de 2%, desempenho bem inferior ao crescimento médio de 5%, observado na última década.
As centrais sindicais e a Anfavea pressionam o governo para criar um mecanismo temporário para preservar a ocupação na indústria, sobretudo no setor automotivo. A ideia é que haja um esforço conjunto entre governo, empresa e trabalhador para evitar demissões. A sugestão é permitir uma redução de até 30% nas jornadas e de 15% nos salários. Em um ano, o setor demitiu quase 15 mil funcionários diretos, sem contar os da rede de fornecedores. Com uma queda acumulada de quase 20% nas vendas, e estoques ainda elevados em seus pátios, as empresas se preparam para uma segunda rodada de paradas.
Para o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, o plano de proteção ao emprego seria uma alternativa para estancar a ferida do desemprego. “Este ano já está perdido”, diz Patah. “Se não fizermos algo, perderemos os outros também.” Como reflexo da Operação Lava Jato, o setor da construção civil deve perder 216 mil vagas, 44% do total dos postos fechados, segundo projeções da LCA Consultoria. “Para este ano, não teremos mais tempo de salvar o mercado de trabalho”, afirma Miguel Torres, presidente da Força Sindical. Empregados que não foram atingidos pelos cortes se questionam qual direção dar à carreira.
De acordo com o consultor Gilberto Guimarães, em momentos de crise o mais indicado é que as pessoas permaneçam nos empregos em que estão, mesmo que a companhia esteja passando por um momento conturbado. A mudança de empregador só deve ocorrer se o setor para o qual recebeu a nova proposta estiver visivelmente menos vulnerável. “Não adianta trocar seis por meia dúzia”, diz Guimarães. “As pessoas devem refletir não pelo valor da proposta, mas pelo risco do desafio.” Os profissionais devem investir em qualificação, ampliando o currículo e a rede de relacionamento. Para os empregadores, a recomendação é de cautela na hora de demitir, pois a reposição pode ser mais custosa quando a economia voltar a crescer.
O Brasil na zona de rebaixamento
Para uma economia que pretende contar com uma participação maior das exportações para crescer nos próximos anos, o Brasil tem um longo caminho pela frente. É o que mostra o ranking de competitividade mundial elaborado pela escola de negócios suíça IMD, em parceria com a Fundação Dom Cabral. Segundo o levantamento de 2015, o Brasil caiu duas posições em relação ao ano passado e ocupou a 56º lugar, de 61 países analisados. A pontuação média foi a pior registrada ao longo de 26 anos de avaliação, só atrás de Mongólia, Croácia, Argentina, Ucrânia e Venezuela. Nos últimos cinco anos, o País caiu 18 posições.
A lista deste ano é liderada pelos Estados Unidos, seguida de Hong Kong, Cingapura e Suíça. Para classificar as economias, o ranking analisa como as nações criam e mantêm um ambiente de negócios saudável e de competitividade para as empresas. Entre os itens estudados, estão: o desempenho da economia, a eficiência do governo, a eficiência empresarial e a infraestrutura. Desses, o que mais influenciou a piora do Brasil foi a desaceleração interna – o crescimento do PIB em 2014 foi de apenas 0,1%, ante 2,3% da economia mundial. Isso indica que a situação deve se agravar no próximo ranking. Com uma retração de 0,2% no primeiro trimestre, o País deve fechar o ano com um PIB negativo de mais de 1%.
Segundo Arturo Bris, diretor do IMD, além da instabilidade, o pessimismo dos empresários também pesou contra. “Todos os fatores de competitividade são afetados negativamente por opiniões de executivos menos otimistas”, afirma Bris. Mesmo sem levar em conta questões conjunturais, o Brasil ainda está a léguas de distância dos líderes em itens como a eficiência do governo, no qual ocupa a penúltima posição, ganhando apenas da Argentina. Trata-se de um sinal de que o País precisa estruturar reformas que vão muito além de um ajuste fiscal.