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06/06/2013 - 03h13
Argentina tira a ALL do trilho
Fonte: Correio Braziliense

O governo de Cristina Kirchner aprontou mais uma para cima do Brasil, ao anunciar nesta terça-feira (4) o fim dos contratos de concessão de 8 mil quilômetros de ferrovias de cargas administrados, desde 1999, pela América Latina Logística (ALL). Inicialmente, o ministro do Interior e dos Transportes do país vizinho, Florencio Randazzo, alegou descumprimento de cláusulas, multas não pagas e abandono de ramais por parte da companhia brasileira. Em seguida, adotou o discurso de que “é estratégico manter sob controle os custos de logística no transporte de cargas de grãos”.
A Argentina vive uma crise na tentativa de recuperar o crescimento econômico. E, nesse sentido, estatizar empresas estrangeiras tem sido uma das escolhas do governo. A ALL não terá de pagar indenização, segundo Randazzo. As linhas passarão a ser de responsabilidade da empresa Belgrano Cargas, reestatizada há duas semanas. Elas cortam as principais regiões produtoras de grãos do país e transportam, por ano, cerca de 5 milhões de toneladas.
No Brasil, o governo preferiu silenciar: o Palácio do Planalto e o Itamaraty não se pronunciaram. Nos bastidores, o entendimento inicial é de que o país não vai intervir no conflito. As ações da ALL fecharam o pregão de ontem em alta de 1,59%. A estatização foi anunciada somente no fim da tarde, quando as negociações na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&Fbovespa) estavam próximas do fim.
Em nota, a ALL informou que, até o momento, não havia recebido qualquer informação oficial do governo argentino e reforçou que, conforme já informara ao mercado, vinha buscando potenciais investidores interessados em adquirir participação nos negócios no país vizinho. Ao longo dos anos, acrescentou o texto, a ALL Argentina se tornou pouco representativa nos resultados da companhia.
Para o professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB) Creomar de Souza, a postura do governo de Kirchner é “bastante perigosa”. “Há uma vontade expressa da presidente em assumir o controle de determinados ativos”, analisou Souza, para quem o fim da concessão da ALL não será o último. “O governo brasileiro deveria agir para defender as empresas nacionais. Mas está diante de um impasse, uma vez que pode complicar a sua relação com um importante parceiro.”
Outros casos
Não é a primeira vez que um país da América Latina estatiza os ativos de uma empresa brasileira. Em 2006, a Bolívia anunciou a nacionalização de todo o setor de hidrocarboneto de lá, o que fez com que as refinarias da Petrobras no território fossem expropriadas.
A estatal e o governo brasileiro também já acompanhavam com cautela os passos da Argentina. No ano passado, Kirchner divulgou a expropriação de 51% da espanhola Repsol-YPF e se recusou a pagar indenização à companhia. Como forma de evitar esse tipo de política, a Petrobras anunciou, em abril de 2012, um plano de investimentos só para a Argentina.
Em 2008, a construtora Norberto Odebrecht também teve problemas com o Equador em relação a uma hidrelétrica. Menos de um ano depois de ser entregue, o presidente Rafael Correa ordenou o embargo dos bens da empresa e militarizou todos os investimentos da brasileira no país.