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22/10/2013 - 03h06
Brasil tem outras duas rotas para os países vizinhos, mas nenhuma tem uso comercial
Fonte: Valor Econômico
Roberto Mira tinha 28 anos quando entrou com o primeiro caminhão comercial brasileiro na Bolívia, em 1978. Levando confecções, tecidos e até cabos de vassoura para abastecer o consumo de Santa Cruz de La Sierra, saindo da sul-matogrossense Corumbá, o transportador teve que abrir picada para seu veículo avançar.
Apenas em 1990, os principais países sul-americanos assinaram acordo para lançar as bases legais de uniformidade para o transporte além das fronteiras, o que abria a possibilidade de interligação por terra do continente, sempre virado para os oceanos.
Mesmo sem todos os trechos de possíveis ligações interoceânicas asfaltadas, transportadoras tentaram chegar além dos países que fazem fronteira com o Brasil.
A rota testada neste ano não é a primeira do gênero. Hoje, existem duas ligações costa a costa. Uma sai do Centro-Oeste, passa por Rondônia e Acre, entra em Puerto Maldonado, no Peru, e termina em Callao, maior porto peruano.
A outra rota desce pela bacia do rio da Prata, corta a Argentina e chega ao porto de San Antonio, o maior do Chile.
Apesar disso, nenhuma empresa brasileira de logística usa essas vias para exportar a países de outros continentes. O comércio fica restrito à América do Sul. A rota boliviana, agora totalmente asfaltada, seria a terceira alternativa para chegar ao Pacífico.
O caso mais emblemático é o da então Expresso Araçatuba, hoje TNT Mercúrio, que tentou viabilizar economicamente a rota São Paulo – Lima, no Peru, em 2001, passando pelo nordeste boliviano.
O trecho, que saía do Brasil pelo Mato Grosso, foi planejado inicialmente para ter duas viagens de caminhão por dia, mas foi desativado. De lá para cá, a empresa mudou de mãos duas vezes e hoje faz o trajeto apenas até a fronteira brasileira com o Peru. Procurada, a empresa não se manifestou.
Para Claudio Montagna, empresário do setor de transporte rodoviário, a Araçatuba sofreu com a falta de trechos asfaltados e também com ” um pouco de romantismo”.
A grande extensão da rota – 5 mil km – e a composição da carga (bens industriais) impediram uma demanda que sustentasse o transporte, na avaliação de Montagna.
A proteção dos mercados internos de transporte por Argentina e Bolívia é um dos principais problemas à integração logística do continente, na visão de Sonia Rotondo, diretora-executiva da Associação Nacional de Transporte de Carga (ANTC).
Presente ao primeiro acordo para tratar de problemas fronteiriços no transporte de carga, em 1997 – o lado brasileiro foi representado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) -, Sonia fez cinco anos antes a rota que liga o Brasil aos portos chilenos passando por território boliviano, quando teve que ir a Santa Cruz de La Sierra discutir normas bilaterais de transporte com o governo local.
“Naquela época não havia ligação direta por terra saindo de Corumbá. Desde os anos 90, esperamos que essa ligação entre o Mato Grosso do Sul e a Bolívia seja asfaltada. Agora fica mais fácil viabilizar o transporte. Não é uma questão de haver ou não uma alternativa. A ligação ao Pacífico tem que dar certo. Há décadas trabalhamos e queremos isso. Tanto é que as coisas estão avançando. Antes era tudo mato”, afirma.