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25/06/2013 - 03h09
Com inflação alta, sindicatos terão dificuldade de obter ganhos reais em negociações no 2º semestre
Fonte: O Globo

Os líderes sindicais de grandes categorias que vão negociar seus acordos salariais no segundo semestre pretendem aproveitar o clima de protestos que tomou conta do país nos últimos dias para mobilizar os trabalhadores na briga por aumentos reais (acima da inflação) de salários, que este ano ficarão mais difíceis. Especialistas, no entanto, são unânimes em afirmar que, com pressão nos preços, economia fraca e mercado de trabalho dando sinais de piora, os reajustes acima da inflação tendem a ficar mais raros nos contracheques.
— No ano passado, os trabalhadores conseguiram a inflação e mais alguma coisa. Este ano, esta “mais alguma coisa” não será muito boa — sintetiza o economista e professor Fernando Holanda, da Fundação Getulio Vargas (FGV-RJ).
Mas justamente porque a inflação está pesando na hora de pagar as compras do mês e já corroeu parte do ganho de renda obtida ano passado, bancários, metalúrgicos e petroleiros dizem que não vão abrir mão de reajustes superiores à inflação e falam em fazer uma campanha conjunta, já que todos têm data-base em 1º de setembro. Na outra ponta, num cenário de consumo retraído, as empresas têm dificuldade de repassar a alta de custo aos preços e, por isso, relutam em reajustar salários.
— Os índices de ganho real já estão menores que em 2012, e os 2% de aumento real conquistados pelos metalúrgicos no ano passado já foram comidos pela inflação. Se não vier (aumento real) pelo amor, virá pela dor — afirma Miguel Torres, da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM) da Força Sindical, que representa 1,2 milhão de trabalhadores do país.
O sindicalista destaca que o atual clima de insatisfação das ruas deve servir de combustível para as paralisações e ameaça:
— Se não atenderem as reivindicações faremos greve. Sem aumento real vamos parar as fábricas.
‘Foi assim com as tarifas de ônibus’
Balanço preliminar do Dieese com base nas negociações do primeiro trimestre mostra sinais de piora: 8,6% dos trabalhadores tiveram perda salarial real, ou seja, não conseguiram repor a inflação, contra apenas 1% no ano passado. Já 86% das categorias conseguiram aumento acima da inflação, com ganho real médio de 1,4%. Em 2012, considerado excepcional para os salários, 95% dos mais de 700 acordos analisados superaram o INPC (índice que baliza as negociações), com ganho médio de 1,96%.
— A inflação traz dificuldade maior para reajuste como um todo e, principalmente para o ganho real. Historicamente, os resultados das negociações tendem a ser melhores no segundo semestre, mas no ano passado ocorreu o inverso. Estamos apostando numa volta à normalidade, com resultados melhores no segundo semestre. De qualquer maneira, é um cenário bem mais difícil — analisa José Silvestre, coordenador de relações sindicais do Dieese.
Carlos Cordeiro, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Confraf-CUT) aposta que, este ano, os bancários estarão muito mais engajados na campanha e argumenta que, mesmo com inflação alta, os bancos continuam muito lucrativos.
— O povo ter ido para as ruas afeta muito a campanha, porque mostra que as conquistas só vêm quando há pressão. Foi assim com as tarifas de ônibus e será com a questão trabalhista. Já estamos vendo possibilidade de uma greve conjunta com os petroleiros, inclusive contra o projeto de lei que permite aumento da terceirização — diz o representante dos 500 mil bancários do país.
O coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Antonio de Moraes, confirma o empenho para que a campanha dos 80 mil funcionários da Petrobras se una a dos bancários.
— Nossa campanha vai para as ruas em agosto, reivindicando inflação mais 5% de ganho real. Sabemos das dificuldades, porém o setor de petróleo está em franca expansão no país.
Valmir Marques da Silva, presidente da Federação dos Sindicatos de Metalúrgicos da CUT, que representa cerca de 250 mil trabalhadores em São Paulo, reconhece que será uma campanha “bem difícil”, mas avisa que os trabalhadores não ficarão na defensiva:
— Estamos com disposição de luta.
Para Claudio Dedecca, professor da Unicamp, os metalúrgicos são exatamente os trabalhadores com menores chances de bons acordos salariais:
— No setor bancário, acredito numa disputa acirrada com possibilidade de ganhos, porque a rentabilidade dos bancos vai crescer com a alta dos juros. Os petroleiros, não acredito que consigam muita coisa, porque a Petrobras está fazendo uma arrumação pesada da casa. E os metalúrgicos não podem esperar conquistas, porque a indústria está numa situação de constrangimento e, é possível, que a negociação seja mais pela manutenção dos empregos do que por aumento real.
Chuvas, trovoadas e desemprego
Dedecca afirma que as empresas vão jogar com isso no momento de negociar:
— Será uma campanha sujeita a chuvas e trovoadas.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Gestão, também vê o desemprego como nova variável na mesa das negociações.
— O cenário se deteriorou bastante nos últimos quinze dias, e a possibilidade de crescimento do desemprego aumentou muito. As manifestações criaram incertezas que diminuem a atratividade de investimentos, houve a desvalorização cambial e as mudanças na economia americana. A taxa de desemprego ainda é muito baixa, mas a expectativa para frente piorou substancialmente.
Para o coordenador de Mercado de Trabalho do Ipea, Gabriel Ulyssea, a preocupação em repor a inflação traz o risco de alimentar a alta de preços, por causa da indexação.
— Haverá uma tensão forte, mas o poder de barganha está reduzido pelo contexto. O ganho salarial certamente vai ser menor. A perda real não vai ser facilmente aceita, mas também não está descartada. Há pouco tempo atrás, estava.