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19/09/2013 - 02h29
Deputado chama sindicalistas de bandidos e protagoniza bate-boca em debate sobre terceirização
Fonte: O Globo

A decisão da Câmara de restringir o acesso de pessoas à Casa vem provocando incidentes e nesta terça-feira provocou bate-boca entre deputados no plenário, depois que o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) chamou de bandidos sindicalistas que queriam participar da comissão geral que debate a regulamentação da terceirização, mas estão barrados no Anexo II da Casa. A primeira reclamação da ação dos sindicalistas foi feita em plenário pelo deputado Osmar Terra (PMDB-RS) que acusou-os de impedir sua entrada e jogarem água nele, pedindo providências. No início da manhã, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, também ficou barrado por alguns minutos na portaria do Anexo II por conta das regras de restrição do acesso à Casa.
Depois da denúncia de Terra, alguns deputados reagiram em plenário, criticando o cerceamento na entrada de sindicalistas para participar da comissão. De acordo com as regras, apesar de comportar mais de 400 pessoas, apenas 200 foram autorizadas a entrar nas galerias.
— Temos denúncia de que estão agredindo trabalhadores. Estamos aqui vivendo quase um cerceamento de trânsito. A pressão é legítima e não é legítimo o cerceamento que está sendo feito — criticou o deputado Amauri Teixeira (PT-BA), sendo aplaudido pelos sindicalistas que estavam nas galerias.
— Abaixo a repressão, abaixo a repressão! — gritaram os sindicalistas que conseguiram entrar e ocupam as galerias.
Outros deputados também se manifestaram:
— Quero ver se a polícia está batendo nos trabalhadores. Se estiver, vamos pedir para as centrais se é absurdo nos retirar dessa comissão — avisou o deputado e presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (PDT-SP)
Irritado, o deputado Darcísio Perondi disse que também teve sua entrada barrada pelos sindicalistas, chamando-os de "bandidos".
— Fui agredido, cuspiram, jogaram água. Em vez da ordem, a desordem. Deputado Paulinho, menos. Vai acalmar os bandidos que você financia — atacou Perondi, sendo vaiado pelas galerias e provocando mais reação de outros deputados.
— Se tem algum bandido, é o deputado — reagiu o deputado Glauber Braga (PSB-RJ), que saiu em defesa dos sindicalistas e disse que aceitava representação contra ele no Conselho de Ética da Casa, acrescentando depois:
— Se tem algum bandido aqui é ele, a partir do momento em que quebra o decoro e tenta criminalizar o movimento trabalhista, legítimo.
Paulinho também reagiu:
— Só tenho a lamentar que o deputado Darcísio diga que nós contratamos bandidos para jogar água em alguém. Os bandidos, com certeza, não está lá na porta.
Ontem pela manhã, por volta de 9h, o secretário do Tesouro Nacional só consegui entrar depois que o presidente da Comissão de Finanças e Tributação, João Magalhães (PMDB-MG) foi até o local para dizer aos seguranças da Câmara que ele era aguardado para participar da reunião mensal que discute a execução orçamentária da União com integrantes da comissão.
— Eu tive que ir lá (buscá-lo), ele estava barrado. A segurança barrou — contou Magalhães.
O secretário Augustin minimizou o problema:
— Não foi isso (ter sido barrado). É que os seguranças tinham informação de que não haveria comissões funcionando hoje.
O problema entre sindicalistas e deputados aconteceu um pouco mais tarde, durante a comissão geral que discute o projeto que regulamenta a terceirização, o deputado Osmar Terra reclamou que foi agredido e impedido de entrar na Casa por sindicalistas que estavam barrados na entrada do Anexo II. Terra disse que os sindicalistas jogaram água nele.
— Presidente, pelo que tome providências. Sindicalistas da CUT e da Conlutas (centrais sindicais) estão impedindo a entrada de deputados. Fui agredido, jogaram água em mim. Isso é insuportável do ponto de vista da democracia. Isso não é democracia. Sem saber o que eu penso ou não, me impediram de entrar — reclamou Terra.
O deputado Vicentinho (PT-SP) reagiu, dizendo que era preciso saber quem realmente estava impedindo a entrada dos deputados porque os manifestantes da CUT estavam orientados a não fazer isso:
— Quem está impedindo a entrada são os seguranças da Casa. A não ser que haja gente infiltrada.
— Vá lá no Anexo II para ver, deputado Vicentinho — rebateu Osmar Terra.
O presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) deixou a presidência da comissão que debate o projeto de regulamentação da Terceirização para cuidar do problema, chamando Vicentinho e Terra em seu gabinete. Depois da conversa, Vicentinho foi até o Anexo II conversar com os sindicalistas.
Os sindicalistas reclamaram do esvaziamento da sessão no Plenário. Os seguranças receberam uma lista de convidados da Secretaria Geral da Mesa, com os nomes de apenas 74 pessoas, incluindo os representantes dos sindicatos. Além disso, entraram jornalistas, parlamentares e seus convidados. Mesmo assim, o clima é de tensão durante toda a comissão geral, enquanto, do lado de fora do Congresso, trabalhadores realizam manifestação contra e a favor ao projeto de lei.
O presidente da Central Geral de Trabalhadores do Brasil (CGTB), Ubiraci Dantas de Oliveira, reclamou que a Câmara deixará de ser a casa do povo e passará a ser “casa de meia duzia de pessoas”.
— Os trabalhadores sempre participaram aqui de todas as sessões — reclamou. — Enfrentamos várias situações nesse Congresso no Brasil. Não é impedindo que os trabalhadores entrem que vai permitir aprovar na calada da noite essa situação de trabalho no Brasil — acrescentou.
Ele considerou que o projeto, ao generalizar a terceirização, vai rasgar a CLT e permitir “que se faça o que quiser com o trabalhador”, além de transformar em selva as relações de trabalho.