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10/09/2018 - 03h57

Desigualdade tem alta similar à dos anos 1980

Fonte: Extra
 
Em 4 anos, pobreza avança 33%, atinge 23,3 milhões de brasileiros e atrasa retomada da economia


 
A desigualdade de renda no Brasil sobe há 11 trimestres consecutivos, numa sequência longa de alta não registrada desde os anos 1980, considerados como a década perdida. Entre o fim de 2014 e junho deste ano, o Índice de Gini — que, quanto mais próximo de um, mostra que a renda é mais concentrada — saltou de 0,5636 para 0,5915. Apenas entre 1986 e 1988 houve um período tão longo e contínuo de piora na desigualdade. O aumento da disparidade de renda é efeito da crise e, principalmente, do desemprego, segundo dados compilados por Marcelo Neri, diretor da FGV Social.
 
- É importante entender que a demora para reativar a economia não está ligada apenas à restrição fiscal trazida pela recessão. Do início da crise para cá, houve alta da desigualdade, o que impacta o bem-estar da população, aumenta a pobreza e atrasa a recuperação econômica do país - argumentou ele.
 
DESEMPREGO AFETA RENDA
 
Um pilar desse obstáculo à recuperação da economia, continua Neri, está no aumento do número de pobres, que avançou 33% desde 2014. Em quatro anos, mais 6,27 milhões de brasileiros cruzaram a linha da pobreza, como antecipou o colunista do GLOBO Ancelmo Gois. Ou seja, vivem com menos de R$ 233 por mês, de acordo com o dado deste mês da FGV Social. No total, são 23,3 milhões de pessoas nessa condição, o equivalente a 11,18% da população.
 
- No início da crise, houve estagflação, que é quando ocorre aumento do desemprego e também da inflação. No auge da recessão, em 2016, a inflação explicava 70% da queda da renda do trabalho no país. Nos últimos três anos, o desemprego é o grande causador da queda de renda - destacou Neri.
 
Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, ele mostra que a renda domiciliar per capita do trabalho chegou a um pico de R$ 979,81 no fim de 2014, com avanço de R$ 70 em quatro anos. A partir daí, cai até chegar a R$ 908,84, no terceiro trimestre de 2016, voltando ao patamar de 2012. De lá para cá, recuperou R$ 30, chegando a R$ 938,09 em junho último.
 
O movimento de retração na renda, ainda que já apresente alguma recuperação desde 2017, foi acompanhado do aumento na desigualdade. A combinação desses dois fatores é utilizada para compor o índice de bem-estar, calculado pela FGV Social.
 
- O bem-estar geral no Brasil caiu 10,6% desde 2014, com o indicador voltando a 383, patamar similar ao de 2012, quando ficou em 380. Isso quer dizer que, em bem-estar social, não se pode falar em recuperação. O avanço conquistado até 2014, quando o indicador chegou a 428, foi neutralizado depois — afirmou ele.
 
Neri chama a atenção para a importância de o governo focar em políticas públicas que colaborem para a redução da pobreza e da desigualdade, não só por uma questão de justiça social, mas como forma de estimular a economia:
 
— A população mais pobre gasta sua renda em consumo, isso aumenta a demanda e faz a economia girar. Um aumento no Bolsa Família, como está sendo feito este ano, tem impacto relevante. Cada R$ 1 do programa pode elevar o PIB em R$ 1,78. No caso dos recursos liberados em saques do PIS/Pasep, esse multiplicador é de R$ 1,06. Já o das contas inativas do FGTS, como foi feito ano passado, de apenas R$ 0,39.
 
A longa trajetória de aumento da desigualdade não acontece desde o fim dos anos 1980, explica ele, após o revés do Plano Cruzado, quando houve inflação e desigualdade em taxas recordes:
 
- A piora na performance social do Brasil explica o mau desempenho econômico. Há três grandes desafios para atuar nesse segmento, a inflação, que parece estar vencida, o desemprego e a questão do ajuste fiscal, que reduz a capacidade do governo de implementar políticas públicas e programas específicos.
 
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