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13/03/2017 - 05h15
Emprego no Brasil só deve começar a melhorar a partir do mês de outubro
Fonte: DCI
Expectativa é de aumento do número de desocupados para 14 milhões de pessoas até setembro, ante os 13 milhões afetados atualmente pela pior crise econômica no País desde os anos 1930


O cenário para o mercado de trabalho só deve melhorar a partir de outubro. É o que mostra o Indicador Antecedente de Emprego do Instituto Brasileiro de Emprego da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) divulgado ontem.
Segundo o relatório, esse indicador capta a expectativa com a situação dos negócios para os seis meses seguintes na sondagem da indústria, e o ímpeto de contratações nos três meses seguintes na sondagem do setor de serviços.
"A pesquisa mostra que tem aumentado o número de pessoas [empregadores] com respostas positivas sobre contratações", diz o pesquisador da FGV/Ibre, Fernando de Holanda Barbosa Filho.
Calculado em sua série histórica com uma base inicial de 100 pontos, o Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp) subiu 0,3 ponto em fevereiro de 2017, alcançando 95,9 pontos, o maior nível desde maio de 2010 quando havia registrado 98,7 pontos.
"O IAEmp retrata otimismo quanto à geração de emprego nos próximos meses. O nível do indicador permanece elevado e houve nova variação positiva do índice", comentou o pesquisador.
Ao mesmo tempo, um outro índice, o Indicador Coincidente de Desemprego (ICD) mostra que a percepção da população sobre a dificuldade de conseguir uma posição de trabalho continua muito ruim. O ICD recuou 1,9 ponto percentual em fevereiro em relação ao mês anterior, atingindo 100,7 pontos, o menor nível desde outubro de 2016 (99,2 pontos).
"No entanto, a situação atual continua preocupante conforme sugere o resultado do ICD, que indica dificuldade de se posicionar no mercado de trabalho. Na margem, o ICD recuou levemente pelo segundo mês seguido, sinalizando pequena melhora na percepção de dificuldade de se conseguir emprego", destacou Filho.
De acordo com o relatório detalhado pelo pesquisador, a classe populacional que mais contribuiu para a queda do ICD foi a do grupo de consumidores que auferem renda familiar mensal entre R$ 4,8 mil R$ 9.6 mil, cujo Indicador de percepção de dificuldade de se conseguir emprego recuou 3,3 pontos percentuais.
"As pessoas de menor qualificação profissional e de baixa renda são as que mais sofrem com a crise econômica", comentou Filho, o responsável pela análise do indicador.
Situação difícil
Para o professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP), Simão Silber, o desemprego deve continuar aumentando nos próximos trimestres. "Até setembro, a expectativa é de 14 milhões de desempregados", aponta. Dados atuais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o desemprego atinge cerca de 13 milhões de pessoas.
"A economia deve ter um crescimento pífio em 2017, muito mais próximo de 0,5% de aumento do PIB [Produto Interno Bruto] do que de 1% como se esperava antes", diz.
Nesse cenário de baixo crescimento da economia brasileira, Silber acredita que a geração de empregos será muito pequena ao longo do ano. "Esse pessoal [14 milhões] não vai arrumar emprego. Qualquer vaga forma filas de dar voltas no quarteirão", argumenta.
Na visão da coordenadora do curso de pós-graduação em recursos humanos da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Denise Delboni, a expectativa de aumento das contratações depois da temporada Carnaval no Brasil pode ficar apenas na percepção. "Não estou otimista", comentou.
Denise Delboni completou que a maioria dos setores da economia ainda está mais demitindo do que contratando. "Todos os setores estão com dados negativos", disse ao citar o último relatório do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Numa perspectiva melhor, a professora lembrou que alguns segmentos como o da construção civil e da indústria de transformação em São Paulo mostraram alguma reação nesse início de ano. "Um menor número de demitidos", disse.
Mas Denise conta que fora de São Paulo, outros estados continuam apresentando resultados ruins por causa da falta ou atraso de pagamentos ao funcionalismo público. "Restaurantes ou estabelecimentos próximos de orgãos públicos estão sendo afetados e podem demitir mais", ressalta.
De fato - em estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais - o atraso ou a falta de pagamento de servidores públicos está prejudicando a dinâmica dos setores do comércio e de serviços.
Silber, da USP, ainda aponta outro agravante para a dinâmica do mercado de trabalho para o próximo ano. "Há incerteza política para 2018. Ninguém sabe quem [entre os políticos] vai sobreviver depois da operação Lava-Jato", observou o professor sobre o cenário futuro.