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17/12/2014 - 12h49
Espanha quer ampliar parcerias com o Brasil
Fonte: O Globo
De gestão em hospitais a rodovias e portos, empresas espanholas avançam, mas criticam entraves

De gestão em hospitais a rodovias e portos, empresas espanholas avançam, mas criticam entraves

Soluções tecnológicas para melhorar a gestão em hospitais públicos, portos, aeroportos e rodovias. Sistemas sofisticados para a vigilância da Amazônia, para a prevenção de incêndios em áreas de florestas e para a defesa aérea. O cardápio que grandes empresas espanholas oferecem ao Brasil é variado. A economia em marcha lenta e a perspectiva de ajuste fiscal nos próximos dois anos não reduziram o apetite de multinacionais como a Indra, uma das maiores de consultoria e tecnologia da Europa, que já tem uma base forte e diversificada de negócios no país e planeja ampliá-la.
O desejo de estreitar relações com o Brasil também é manifestado por setores do governo espanhol, que ainda enxergam a possibilidade de incentivar o caminho inverso, atraindo empresas brasileiras. Mas a imagem do Brasil na Espanha é a de um país complexo, com entraves e burocracia que dificultam os investimentos.
— O Brasil é um país muito atraente para investimentos estrangeiros. Metade dos investimentos espanhóis na América Latina está no Brasil, mas o que nos dizem é que, para pequenas e médias empresas, o custo é muito grande. É um país complexo com administração complexa e sistemas estaduais diferentes — avalia Jesús Gracia Aldaz, secretário de Cooperação Internacional para a Ibero-América do Ministério das Relações Exteriores da Espanha.
Falta mão de obra qualificada
Os executivos da Indra reclamam de entraves para a contratação de mão de obra. A empresa tem hoje oito mil profissionais atuando no Brasil e, para crescer, precisa de mão de obra qualificada, que não encontra no país e tem dificuldade de importar profissionais.
— A mão de obra qualificada é muito boa, mas é pouca. Precisamos de mais engenheiros e é difícil conseguir. O processo é burocrático, muitas vezes a titulação (dos estrangeiros) não é reconhecida. Um dos principais problemas que temos é com o staff — diz Emílio Diaz, presidente da Indra para as Américas.
A Indra já tem presença forte no país com serviços e soluções para vários setores: defesa, controle de tráfego aéreo, gestão inteligente do tráfego de rodovias, sistemas e plataformas de TI para instituições financeiras, entre outros, mas demonstra fôlego e disposição para ampliar seus negócios. Recentemente, a empresa fechou contratos no valor de R$ 54 milhões com as companhias de Docas de São Paulo e do Espírito Santo para implantação de sistemas inteligentes de controle de tráfego de embarcações. E está participando da concorrência para implantar os mesmos serviços no Porto do Rio.
Outro filão identificado pela multinacional espanhola no Brasil é o desenvolvimento de soluções para melhorar o atendimento nos hospitais públicos. Foi contratada pelos governos do Acre e de Alagoas para desenvolver um sistema que agiliza as consultas e permite ao médico acessar o histórico do paciente. E planeja oferecer esse modelo de gestão aos hospitais públicos do Rio e de São Paulo.
— Vamos continuar apostando no Brasil. Faz parte da estratégia central da empresa. A percepção é que o país precisa de tecnologia e vai continuar crescendo. Só vai ficar um pouco mais caro, porque os juros estão subindo — afirma Diaz.
Outra gigante espanhola com negócios no país e planos para expandi-los é a Abertis, que atua na gestão de rodovias em cinco estados, por meio da Arteris. A empresa já tem investimentos previstos de R$ 6,2 bilhões, mas planeja novos negócios. Nos planos imediatos estão a concessão da ponte Rio-Niterói e oportunidades em torres de telecomunicações. Os executivos da empresa não demonstram preocupação com a conjuntura econômica, mas também reclamam da burocracia e da complexidade para atuar no país.
Esse mesmo interesse em desenvolver projetos e ampliar as parcerias com o Brasil é manifestado pela administração do Porto de Barcelona. Totalmente automatizado e operando sem filas, o porto é referência em gestão e exporta boas práticas. Manuel Galán, responsável pela área de promoção, informa que já existem acordos de cooperação com os portos de Santos (SP), Vitória (ES) e Imbituba (SC) para melhorar a gestão, mas o potencial no país é bem maior:
— Em relação aos portos, o Brasil está em um estágio de desenvolvimento que a Espanha estava há 15, 20 anos atrás.
Referência mundial
A Secretaria dos Portos, responsável pela formulação de políticas e diretrizes para o setor, confirma o interesse nas parcerias com o Porto de Barcelona e destaca que a Zona de Apoio Logístico (ZAL), por exemplo, é uma referência mundial que deverá servir de exemplo em áreas semelhantes no Brasil. Outro programa de interesse desenvolvido pelo Porto de Barcelona é o Programa de Garantia de Qualidade.
A Espanha vive um momento de recuperação econômica, após passar por um forte ajuste fiscal e reformas nas áreas trabalhista e financeira para fazer frente aos desafios da crise mundial de 2008. O país voltou a crescer, depois de cinco trimestres consecutivos de queda do Produto Interno Bruto (PIB), e a expectativa é de expansão da economia de 1,3% em 2014 e de 2% em 2015, mas ainda não conseguiu resolver um de seus principais problemas: a taxa de desemprego de 23%, a mais alta da Europa.
O governo do presidente Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), está desgastado com denúncias de corrupção e há forte insatisfação da população com as medidas de ajuste e o desemprego alto. O aumento das exportações, a internacionalização de empresas espanholas e a atração de investimentos são vistos como caminho para turbinar a economia e recuperar a popularidade. Nesse contexto, o Brasil é considerado estratégico.
Segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, a Espanha tem estoque de investimentos de € 71 bilhões. Já os investimentos brasileiros no país são de € 8,8 bilhões, se consideradas as sociedades holdings, diz a agência de promoção de exportações e investimentos da Espanha (Icex).