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26/09/2014 - 12h19

Marítimos: salário alto para compensar a saudade da terra firme

Fonte: O Globo

Tripulantes contam as experiências vividas no mar

 
Cada um dos 24 tripulantes do navio Américo Vespúcio, da Aliança, no qual O GLOBO viajou de carona por 17 dias entre Santos e Manaus, tem histórias únicas sobre os caminhos que os levaram ao alto-mar. Alguns admitem que nasceram para a vida longe da terra firme. Da quarta geração de marítimos, Deoclécio Severino Bezerra é um deles. Ele é natural de Cabedelo (PB), considerada o berço de tripulantes. A piada local é que os bebês de Cabedelo tiram a CIR (Caderneta de Inscrição e Registro de Marítimo) antes mesmo da certidão de nascimento. No navio, o cozinheiro e o taifeiro também eram da cidade paraibana, dando certa veracidade ao chiste.
 
Deoclécio, de 36 anos, nunca se desgruda — nem quando está ocupado, cuidando do convés — de um pedaço de papel amarelado, remendado com durex, que tem quase o dobro de sua idade. Numa carta conservada com delicadeza em um envelope plástico, está a oração que sua tia-avó escreveu para seu irmão em 1946, logo após ele ter sobrevivido a um naufrágio num tempo em que a navegação era atividade de risco, com a lembrança viva da Segunda Guerra Mundial e dos submarinos alemães, que insistiam em afundar embarcações brasileiras. Como um patuá, a oração-amuleto foi passada de geração em geração até chegar às suas mãos.
 
— É uma oração simples, muito bonita, que minha tia-avó, ainda novinha, fez ao meu tio-avô, seu irmão. Lá está dizendo que, se ele estivesse com a carta, nada de mal lhe aconteceria. E desde que ele esteve com a carta, nada aconteceu.
 
Deoclécio não aceitava com tranquilidade o fato de seu pai ter sido marítimo. Nunca buscou a profissão, mas acabou aceitando esse destino para dar uma vida melhor à família. Ele abandonou empregos em terra que pagavam pouco mais de um salário mínimo, para ganhar sete vezes mais no mar:
 
— Nunca entendi o meu pai, que passava um ano fora e ficava um mês com a gente. A gente tinha uma vida confortável, mas eu não entendia. Até o dia em que tive que passar cinco meses numa viagem a Buenos Aires e, quando voltei, minha filha de sete meses não me reconheceu. Doeu muito, mas aí pude entender o que o meu pai passou, o que ele sofreu para nos dar uma condição melhor.
 
Uma notícia ruim chegou horas após dizer que, enfim, compreendia a dor do pai. Nas proximidades de Abrolhos, cercado de baleias que nessa época do ano buscam o sul da Bahia como berçário, foi informado de que seu pai falecera de um câncer contra o qual lutava há tempos. Deoclécio preferiu não sair do navio em Salvador — a praxe nestes casos é o desembarque no primeiro porto disponível — e seguir para sua terra natal. Sereno, decidiu continuar embarcado e viajar para a Paraíba apenas no fim de sua escala, quando planejava confortar sua mãe, sempre tão habituada à solidão imposta pela distância do mar.
 
— Preferi continuar, terminar o meu trabalho e depois seguir, com calma, para casa — disse, treinado desde a infância com a saudade e, como sempre, segurando a oração de sua tia-avó.
 
Ao contrário do que muitos pensam, o ambiente em um navio de cabotagem é familiar, contrastando com a solidão das estradas e a frieza monótona dos trens, os três principais meios de transporte de carga do país. A tripulação, obrigada a conviver ilhada por meses, cria um ambiente propício para reduzir o cansaço do trabalho marítimo, a aflição do confinamento e a amargura da saudade.
 
— Com o tempo navegando, me acostumei com a dor da saudade, mas isso não significa que ela doa menos — sintetiza a baiana Aline de Souza Reis, de 30 anos, engenheira eletricista que está concluindo o estágio como oficial de máquinas num período de seis meses seguidos no mar.
 
JORNADA MAIS LONGA QUE A DE ‘NOÉ'
 
Mas há quem tenha saudades do próprio mar. Henrique Feijó Donato, de 43 anos, continua no oceano quando encerra seu período embarcado. Morador de uma ilha — Itacuruçá, na Baía de Sepetiba (RJ) — passa os dias livres velejando, pescando ou atravessando o oceano para resolver algo no Rio:

 
— Gosto dessa liberdade do mar, do cheiro do mar. Tem gente que não gosta do balanço. Eu sou o contrário. Quando vejo aquela Avenida Brasil, fico com dor de cabeça. Não consigo viver longe do mar — disse ele, que tem como hobby confeccionar navios de papel jornal no período que passa embarcado. — O mar nos dá uma ligação com a natureza, aprendemos a prever, respeitar e até entender as tempestades.
 
A ligação dos marítimos com a natureza é histórica. Uma das fascinações da categoria é aprender a navegar lendo as estrelas:
 
— Há muita tecnologia, mas ela pode faltar. É muito relaxante ver tantas estrelas, que nunca vemos nas cidades, sempre tão iluminadas — diz o oficial peruano Elmer Luis Macuri Mollehuara.
 
No navio, uma das distrações mais procuradas nessa viagem foi o DVD do filme “Noé”, que retrata a aventura épica de 40 dias no mar. Mas o tempo a bordo do navio da tripulação é maior que o do famoso personagem bíblico: 56 dias. No caso dos empregados da Aliança, o período de descanso em terra é igual ao tempo de trabalho. Mas é comum encontrar exemplos de escalas piores no setor: um mês de folga para cada dois meses embarcado.
 
— Mas é melhor que meu trabalho anterior, quando atuava na Transamazônica e ficava quatro meses na floresta e, às vezes, tinha só quatro dias de folga — conta o engenheiro e oficial de navegação Wondell Luiz Santos Pereira.
 
A tripulação do Américo Vespúcio embarcou em Manaus na véspera do fim da Copa, no dia 12 de julho. Os profissionais só voltaram para casa em 6 de setembro, véspera do feriado da Independência.
 
— Ficamos meses longe da família, mas depois ficamos integralmente com eles. Muitos que trabalham em terra saem de casa antes do filho acordar e voltam quando estão dormindo, por causa do trânsito — se consola Francisco Renato da Costa.
 
Há outros três antídotos para a saudade. O primeiro é a tecnologia: a navegação próxima da costa é a felicidade do marítimo, pois permite contatos por celular, internet e TV. O segundo remédio é ter a família presente: a Aliança permite que os funcionários embarquem nos navios com familiares como acompanhantes, o que ocorre com mais frequência nas férias escolares. O terceiro paliativo é o churrasco com pagode. Sempre que a navegação fica muito tempo no mar, Osmar Barbosa, o chefe de máquinas da tripulação — que é fixa — também chefia a festa. Para se integrar ao ambiente descontraído, o moço de máquinas Miguel da Fonseca Cavalcanti, estreante na tripulação, deixou o reggae de lado e comprou um cavaquinho: em pouco tempo tocava três músicas.

 
Os novatos aprendem com os antigos. Marcos dos Santos Silva conta histórias de aposentado da Marinha de Guerra e da vez que foi à Antártida, nos anos 1980. O “velho lobo do mar” Antônio Vieira de Carvalho, com 36 anos de experiência, relembra histórias da época de ouro do Lloyd, que o levou a mais de 40 países, com longas escalas: chegou a ficar 18 dias em Gênova, por exemplo:
 
— Na África ou pela América Central tinha o risco de entrar clandestino no navio. Uma vez encontrei dois, no porto da República Dominicana. Eles entraram pelo escovém (local onde fica a corrente que segura a âncora), e poderiam morrer ali mesmo. Quando os vi, me pediram para não entregá-los. Eu dizia que não podia, que chegando ao Brasil seriam presos. E responderam: “Não tem problema, preso a gente tem algo para comer’’. É de cortar o coração.
 
‘FIM DO NAMORO NO NAVIO É ESTRANHO’
 
Outra situação diferente no mar é a vida das mulheres. A enfermeira Cristiane dos Santos Oliveira, única paulista do navio, conta que o ambiente é de tanto trabalho que se esquece de fazer as unhas. Já a marinheira Dayse Silva Pereira afirma que já terminou com namoros pela profissão.
 
— Tive um namorado que queria que eu parasse de trabalhar embarcada quando nos casássemos. Terminei o namoro na hora — conta ela, que também já namorou colegas de navio: — Quando tudo está bem é ótimo, mas quando o namoro acaba é estranho, continuamos vendo a pessoa o tempo todo, não há pra onde fugir no navio.
 
Os embarcados recebem, por mês, ao menos R$ 4 mil, valor que é quase o triplo da média salarial do país. Mesmo para quem tem nível superior, como engenheiros, os rendimentos superam em muito os ganhos em terra. Mas parece que nada compensa a saudade:
 
— Falar da família é duro, ficamos longe muito tempo... Isso mexe com a gente — diz, com a voz embargada, o capitão Carlos Câmara, comandante do navio, que ainda sofre com a distância mesmo depois de três décadas no mar.
 
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