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08/10/2014 - 03h43
Mudanças profundas no mercado de trabalho
Fonte: Estadão / Blog João Villaverde
Você está trabalhando menos, caro leitor? Pois é, os dados do IBGE mostram que os brasileiros estão com uma jornada cada vez menor. Por que?

Você está trabalhando menos, caro leitor? Pois é, os dados do IBGE mostram que os brasileiros estão com uma jornada cada vez menor. Por que?

Os brasileiros estão trabalhando menos. Entre abril e agosto deste ano, a jornada média de trabalho foi de 40,1 horas por semana. Esses dados foram obtidos por este blog a partir do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Apenas quatro anos atrás, a média de trabalho semanal em igual período fora de 40,7 horas por semana. Em 2002, a jornada média fora de quase 42 horas por semana. Há um fato indiscutível aí: a jornada de trabalho está caindo. Lentamente, mas está.
Mas essa redução na jornada de trabalho, no entanto, pode ser um sinal do desaquecimento econômico associado à forma como o crescimento do emprego ocorre no Brasil. Segundo especialistas em mercado de trabalho consultados pelo Estadão, o baixo crescimento faz os empresários reduzirem o número de horas trabalhadas de seus funcionários, em especial na indústria. No caso dos fabricantes automobilísticos, por exemplo, há o expediente do “lay off”, quando as montadoras concedem férias coletivas aos trabalhadores, na expectativa que haverá uma recuperação do mercado de consumo. Se essa recuperação vier, os trabalhadores voltam à ativa. Se não vier, as empresas começam a demitir. Estamos, neste exato momento, no meio do caminho. Todos estão aguardando.
De acordo com o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio Econômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, a redução da média de horas efetivamente trabalhadas no Brasil ocorre por uma combinação de fatores.
Além do baixo crescimento da economia, que reduz o consumo e, com isso, a produção geral, o mercado de trabalho tem gerado vagas principalmente no setor de serviços, onde as jornadas são “parciais”. No caso de serviços de telemarketing e também os técnicos de tecnologia da informação, por exemplo, as jornadas variam de seis a oito horas por dia, resultando em 30 a 40 horas de trabalho semanais. “A jornada de serviços pode estar influenciando a jornada média geral”, afirmou Ganz Lúcio, que é cientista social pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A Copa do Mundo também serviu para reduzir a jornada de trabalho. O mês de junho registrou a menor média de horas efetivamente trabalhadas segundo os dados do IBGE, cuja série histórica começa em 2002. Foram 39,1 horas por semana, em média, trabalhadas em junho de 2014. Aqui parece existir um consenso: ninguém trabalhou muito mesmo em junho.
Já em agosto, o dado mais recente disponível, a jornada média aumentou quase duas horas, passando a 41 horas semanais.
“Entre 2002 e 2014 houve uma tendência de queda no emprego industrial e de aumento nas vagas em serviços e comércio. Essa foi uma mudança profunda na estrutura do mercado de trabalho do País. De modo geral, vivemos uma redução da jornada de trabalho no Brasil”, afirmou o especialista João Saboia, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A jornada dos brasileiros é muito mais próxima das 40 horas por semana do que das 44 horas semanais”, afirmou Saboia, em referência à jornada estipulada na CLT.
A mudança legal para a fixação de uma jornada de 40 horas semanais sem redução de salários é hoje a principal bandeira das centrais sindicais. Em todos os comícios promovidos por sindicalistas para as três principais candidaturas presidenciais, de Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB), a bandeira “40 horas já” foi levantada. Oficialmente, o Palácio do Planalto afirma há mais de dois anos que estuda a medida, mas que não há planos de tirá-la do papel no curto prazo.
A queda no tempo que o brasileiro gasta no trabalho ao longo de uma semana, entre 2010 e 2014, também pode ser explicada pelo ciclo econômico. Apenas quatro anos atrás, o Produto Interno Bruto (PIB) crescia a patamares recordes de 7,5%, e o mercado de trabalho registrara a criação de quase 4 milhões de vagas com carteira assinada em um ano. A inflação tinha ficado abaixo da meta no ano anterior (fora de 4,3% em 2009) e a economia estava deixando para trás a queda de atividade decorrente da explosão da crise mundial, no fim de 2008.
“Quando a economia inicia um ciclo de forte crescimento, os empresários aumentam as horas extras e a jornada de trabalho aumenta. Apenas quando as empresas tem segurança que a economia continuará crescendo e que aquele ritmo não é apenas um espasmo pontual, ela começa a contratar mais mão de obra, e então a jornada estatisticamente diminui”, afirmou Ganz Lúcio, do Dieese. Segundo ele, foi isso que determinou o pequeno incremento na jornada média verificada entre 2006 e 2010.
Para ele, a discussão sobre a redução oficial da jornada no País é complexa hoje, devido justamente ao ciclo econômico. Diferente do cenário de quatro anos atrás, o PIB agora deve crescer apenas 0,7%, segundo o BC. No primeiro semestre, a economia brasileira registrou uma recessão técnica, após dois trimestres consecutivos.
Ou seja: por mais que as centrais gritem “40 horas já!”, o mar não está para peixe.
Veja, caro leitor, a jornada média de trabalho por semana nos últimos quatro anos eleitorais:
2002 –> 41,8 horas por semana
2006 –> 40,6 horas por semana
2010 –> 40,8 horas por semana
2014 –> 40,1 horas por semana
Parece que todos estamos trabalhando menos do que trabalhávamos em 2002. Com a jornada média do País se consolidando em 40 horas por semana, faz sentido que a CLT ainda estipule jornada de 44 horas semanais…?