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06/11/2018 - 00h24
Nas três carreiras mais procuradas, homens ganham até 23% mais que mulheres
Fonte: O Globo
Salários médios de homens advogados, médicos e engenheiros civis são superiores, segundo a consultoria iDados. No Direito, a desigualdade aumentou em dez anos
Apesar de estarem cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e serem maioria no ensino superior, as mulheres ganham menos nas três carreiras que mais formam e melhor pagam no país: direito, medicina e engenharia civil. Isso reflete tanto o fato de as mulheres acumularem trabalho e tarefas domésticas quanto diferenças na regulamentação salarial dessas carreitas, apontam especialistas.
Um levantamento da consultoria iDados mostra que, no caso do direito, a desigualdade de gênero está aumentando. As mulheres são maioria nas formaturas (57%) e já representam 49% desses profissionais no mercado. No entanto, o salário médio dos homens com esta formação é 23% superior ao das mulheres, incluindo profissionais que atuam no Judiciário. Essa diferença mais do que dobrou na última década. Em 2007, a vantagem masculina era de apenas 10%, mostra a pesquisa, que cruzou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE, da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e do Censo da Educação Superior.
Poucas mulheres em postos altos
Nos outros dois cursos avaliados, a desigualdade de gênero caiu nos últimos dez anos, mas ainda é um desafio para as mulheres. Na engenharia civil, os homens recebiam 21% mais que as mulheres. Em 2017 essa diferença caiu para 15%. Na medicina a desigualdade é menor. Há dez anos os médicos tinham rendimento 8% superior ao das médicas e, em 2017, essa diferença recuou para 5%. Em ambas as profissões, nesse período, a parcela de mulheres entre os formandos aumentou, enquanto a de homens caiu.
Segundo Thais Barcellos, pesquisadora do iDados, ainda que haja barreiras comuns, diferenças na regulamentação salarial e no plano de carreira dessas três profissões explicam, em parte, a maior discrepância entre esses salários:
— Ao contrário do direito, medicina e engenharia civil têm regulações mais bem definidas em relação ao piso salarial. Além disso, há uma hierarquização maior no direito. Você pode ser desde um advogado até ministro do Supremo, o que provoca um abismo entre os salários porque as mulheres são minoria nos cargos mais altos.
Apesar de os concursos públicos para cargos no Judiciário funcionarem como uma vacina para a discriminação de gênero, Renata Gil, presidente em exercício da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), lembra que a maior parte dos profissionais do direito está no setor privado e isso contribui para a desigualdade salarial:
— Temos 1 milhão de advogados inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a maior parte em escritórios e empresas, e somente 18 mil juízes, funcionários públicos. No setor privado o problema é maior. A maioria das mulheres ocupa cargos inferiores e ganha menos que os homens na mesma função, diferentemente do setor público, onde os salários são equiparados.
Segundo Renata, as mulheres já são 44% dos juízes substitutos, primeiro degrau da carreira da magistratura, mas são poucas na cúpula do Judiciário. Elas ficam com apenas 16% das posições nos tribunais superiores. Entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), maior salário do serviço público, há apenas duas mulheres: Cármen Lúcia e Rosa Weber.
A dificuldade de conciliar vida pessoal e carreira, devido ao acúmulo de tarefas familiares pelas mulheres, e também o sistema de indicações políticas para os cargos mais altos, geralmente de homens, também contribuem para aumentar essa desigualdade, diz Renata.
O advogado e professor de equiparação salarial do departamento de Direito da USP Estêvão Mallet acrescenta que, entre os advogados no setor privado, a desigualdade salarial também está relacionada à predominância masculina no direito há até pouco tempo. Os advogados mais experientes, sócios das principais bancas, são homens. Além disso, eles tendem a serem mais atraídos para o direito penal, que tem remuneração maior que a área de família, que tradicionalmente concentra mulheres.
Setor público é menos desigual
Apesar de a política de piso salarial favorecer a redução da desigualdade de remuneração na engenharia, Ana Adalgisa Paulino, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) do Rio Grande do Norte, observa que isso só ajuda as mulheres nos postos iniciais da carreira.
— Conforme há progressão na carreira, as mulheres ganham menos que os homens mesmo com a mesma qualificação — reclama Ana Adalgisa, que dirige uma das quatro unidades estaduais do Crea presididas por mulheres, entre os 27 do país.
Na medicina, a desigualdade tem razões semelhantes. Segundo Ligia Bahia, diretora da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, há mais mulheres ocupadas em especialidades que remuneram menos, como as cognitivas, enquanto há mais homens no ramo cirúrgico, que paga mais. Por conta do acúmulo de tarefas domésticas e com os filhos, as mulheres também tendem a dispensar plantões, que aumentam a renda consideravelmente por serem um ganho extra.
— No setor público os salários são melhor equiparados — diz Ligia.
Desde 1992 a participação feminina no ensino superior brasileiro é maior do que a masculina, quando considerados os jovens de 18 a 24 anos, período em que deveriam estar na universidade. A parcela de mulheres dessa faixa etária na faculdade, nos últimos 25 anos, saltou de 4,9% para 21,7%, enquanto que, entre os homens, passou de 4,2% para 16,6%.
No Judiciário, Rilma Aparecida é exceção
São Paulo. Anos 1970. Ao entrar em um ônibus, na capital paulista, a estudante Rilma Aparecida Hemetério recebeu de uma passageira um convite inesperado: “Você quer trabalhar lá em casa?”. Mal sabia, aquela mulher, que a jovem negra, nascida em Caxambu, Minas Gerais, era universitária do curso de Direito da USP e, menos de uma década depois, já seria juíza do trabalho concursada.
— Ser mulher torna complicado o acesso a qualquer posto de trabalho, ainda mais quando se é negra e de origem pobre, como eu. Aquela mulher achou, só pela minha cor, que eu aceitaria trabalhar como empregada doméstica — conta Rilma, cuja família é uma mistura de negros, índios e judeus e, este mês, aos 65 anos, se tornou a primeira mulher negra a presidir o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), o maior do país.
Em outra ocasião, quando prestou concurso para o Ministério Público, antes de ingressar na Justiça, ouviu do chefe do órgão que, se dependesse da vontade dele, nenhuma mulher preencheria as vagas. Resultado: a maioria das aprovadas foi mulheres, entre elas Rilma. Ela é a 5ª mulher a assumir o posto mais alto do TRT-SP, onde atualmente 56% dos juízes substitutos são mulheres. Também são 54% dos desembargadores, 52% das auxiliares e ocupam 55% dos cargos de chefia ou confiança. Mas sabe que essa realidade é exceção:
— Alguns tribunais sequer têm mulheres no cargo de direção. Vivemos em um mundo machista. O próprio cargo de juiz, estabelecido em lei, tem uma definição masculina. Então, criaram um mundo em que se falava no homem como aquele que ocuparia os melhores postos e as mulheres seriam coadjuvantes. Mas nós (mulheres) estamos quebrando essa barreira — disse Rilma.
Na medicina, maternidade dificulta plantões
Numa carreira como a medicina, que envolve anos de dedicação à graduação e especialização, a maternidade representa um limitador para as mulheres. A tendência é que elas deixem os plantões noturnos, o que pode representar queda considerável da remuneração, e prefiram o trabalho em consultórios em vez da carreira em grandes hospitais por causa da flexibilidade.
Foi o que aconteceu com a oftalmologista Aline Félix de Paula, de 43 anos, que reduziu a carga horária depois do nascimento da filha, Laís, hoje com 7 anos de idade. Ela deixou de dar plantões noturnos, que correspondiam a cerca de um terço da sua renda, e concentrou-se no seu consultório. Para não perder pacientes, voltou a dar expediente menos de dois meses depois de dar à luz.
— Na época, estava casada e era meu marido quem segurava as pontas da casa, pois minha renda caiu bastante — conta. — Até hoje minha carga de trabalho é menor porque sempre tem um compromisso da escola, uma apresentação ou mesma ida ao médico para os quais preciso me ausentar.
Aline conta que adiou a maternidade para poder concluir a residência e a especialização:
— A medicina é um curso longo e a mulher tem uma idade biológica, um período mais seguro para engravidar. Então, se você quer se dedicar e fazer sua clientela, o que é ainda mais difícil para uma cirurgiã, porque há resistência, acaba extrapolando essa idade fértil.






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