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08/03/2018 - 03h11
No Porto e na navegação, mulheres conquistam seu espaço no complexo santista
Fonte: A Tribuna On-line / Fernanda Balbino
Conheça mulheres que estão dando um toque de leveza e competência neste mercado

Atenção, cuidado, inteligência emocional e uma dose grande de coragem. Estes são os ingredientes do sucesso para mulheres que se arriscaram no mundo marítimo e portuário. O mercado de trabalho é predominantemente masculino, mas, com um toque de leveza e muita competência, aos poucos, elas vão conquistando o seu espaço no Porto de Santos.
Nascida em Tomar do Geru (SE), Luana Viana Soares tem 26 anos e há dois decidiu mudar de endereço em busca de novas oportunidades. Veio para Santos e, por acaso, através de uma conhecida, soube da expansão do Terminal Integrador Portuário Luiz Antonio Mesquita (Tiplam) – instalação da operadora logística VLI no Porto.
“No dia da entrevista, eu nem sabia o que era a VLI. Quando cheguei, comecei a ter noção e pensei: e agora, o que eu vou fazer? Nunca havia colocado um capacete na cabeça”, contou. Mesmo com poucas chances de contratação, Luana apostou na possibilidade e garantiu uma vaga de trainee.
Foram alguns meses de curso até que soube que seria a primeira operadora de carregador de navios do Porto de Santos. Na prática, Luana fica em uma cabine a uma altura de 30 metros, o equivalente a um prédio de 10 andares.
Com uma visão privilegiada do Canal de Piaçaguera, ela comanda a descarga de milhares de toneladas de produtos nos porões das embarcações. Também é dela a responsabilidade de distribuir os grãos para evitar qualquer tipo de avaria na carga ou no navio.
“Teve preconceito? Pode ser que sim, mas foram coisas irrelevantes, principalmente a insegurança de operadores antigos. Eu sempre cobrava a oportunidade de pegar a máquina, no início. Precisava manusear para aprender. Insisti, insisti e mostrei que tinha capacidade, que eu podia e estou aí até hoje”, afirmou Luana.
Hoje, ela cursa Gestão Portuária na Faculdade de Tecnologia (Fatec) Rubens Lara, em Santos. E pretende ter aulas de inglês para buscar novas posições na empresa. Uma das metas é ser inspetora de bordo.
“Eu me sinto honrada e a minha mãe disse que eu estou sendo exemplo para a família. Isso me dá mais força e coragem para continuar. Não é fácil estar aqui sozinha. Vem a vontade de desistir, mas eu botei na cabeça que quero conquistar a minha meta. Eu vou lutar, não vou desistir. Senão, não estaria aqui”.
Exemplo
A experiência da empresa em contratar uma mulher para operar o carregador de navios foi bem sucedida. A profissional já atua há um ano na função e seu bom desempenho também acabou chamando a atenção de outras profissionais do Tiplam. É o caso de Taís Souza de Oliveira, de 36 anos.
Ela atuava como operadora de máquinas no terminal. Mas, a grandiosidade do carregador de navios e a sensação de controle nas alturas despertaram o interesse da profissional, que se candidatou a uma vaga.
Mãe de uma filha de 4 anos, antes de ingressar no setor portuário, Taís fez um curso técnico em Enfermagem. Porém, nunca exerceu a profissão. Por meio de uma amiga, descobriu a possibilidade de uma carreira no cais santista e se qualificou para operar máquinas pesadas.
Para Taís, a sensação de estar no comando do carregador de navios é apaixonante. Mesmo com muitas funções executados simultaneamente, a portuária ainda consegue contemplar a paisagem, sem deixar que nada atrapalhe a operação.
“Eu acredito que as mulheres são mais organizadas, cuidam mais da máquina, têm mais preocupação em manter a ordem. Atenção e responsabilidade têm que ser constantes, além dos cuidados. Para eles, nós somos as chatinhas que querem deixar tudo limpo. Mas tem que ser assim mesmo”, afirmou.
Elétrica
Dividindo a função com muitos homens, Amanda Cristani Santos Cabral, de 21 anos, já garantiu seu espaço no setor elétrico do terminal. Ela, Taís e Luana fazem parte de uma fatia de 10% dos trabalhadores do Tiplam que são mulheres.
“Eu trabalho como os rapazes. Tudo o que eles vão fazer na área, eu vou junto. Tem que carregar peso? Carrego peso. Tem que atuar? Vou atuar. Não tem diferença. Eu sou eletricista. Sendo mulher, escolhi essa profissão e a encaro”, destacou Amanda.
Ela entrou no Tiplam após cursar eletroeletrônica. Hoje, cursa Automação Industrial e ainda pretende fazer Engenharia Elétrica. O objetivo é comandar as equipes da sua área no terminal.
“Assim como eu consegui e outras conseguiram, outras que querem vão conseguir. A gente tem que mostrar que esse cenário também é pra mulher, senão as coisas não mudam. As mulheres estão presentes em todos os cantos e por que não no Porto?”.

Um desafio e tanto no comando do navio
Se exercer postos de comando em terra firma é um desafio constante, em alto-mar a tarefa é ainda mais complicada. Mas, a comandante Daisy Lima da Silva, de 37 anos, embarcou no sonho e hoje comanda uma tripulação formada por 19 oficiais homens.
Formada em 2000 pela Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (Efomm), de Belém (PA), Daisy comanda o porta-contêineres Sebastião Caboto, da Aliança Navegação. Hoje, ela atua em uma rota de cabotagem, que sai de Manaus (AM) até Itapoá (SC). Para isso, fica 56 dias embarcada.
“Além da navegação, tem a administração do navio, a segurança da carga, da propriedade do armador e ainda a questão do meio ambiente. É preciso ter o domínio da legislação e do gerenciamento de recursos e pessoal”, explicou.
Uma das experiências mais importantes na carreira de Daisy foi a sua atuação como imediato e comandante do então navio Aliança Energia, especializado em cargas de projeto. Como as mercadorias têm grandes dimensões, é necessário um maior cuidado durante as operações.
No dia a dia, um dos desafios é lidar com a saudade de casa. Neste caso, a dela e dos seus tripulantes, que também ficam fragilizados, apesar de estarem acostumados. Nessas horas, para Daisy, é preciso apostar na inteligência emocional para lidar com os desafios da convivência durante quase dois meses em confinamento.
“No navio, precisamos ser firmes, mas não tão duras. Os gritos não são necessários. Nos tratamos com respeito”, afirmou a comandante.
A tecnologia é uma aliada. O acesso à internet é restrito apenas em dois dias de navegação. Nos outros, as redes sociais ajudam a encurtar a distância. Por outro lado, as operações mais eficientes fazem com que a tripulação passe poucas horas em terra, o que dificulta a imersão em novas culturas.
Em outra embarcação, o marido de Daisy que atua na mesma função, passa os mesmos 56 dias em alto-mar. O comandante Francisco Souza é o responsável pelo navio Bartolomeu Dias, da mesma empresa. Para ele, as mulheres dão um toque de alegria aos longos períodos de mar.
“É uma presença muito bem-vinda. O navio fica muito mais alegre e leve com as tripulantes. Elas foram entrando, entrando e se adequaram, Hoje, queremos mais lideranças femininas”, afirmou. Ele mesmo admite que, inicialmente, ficou reticente à presença delas nas embarcações.
Apesar de saber que será uma tarefa complicada, já que permanece embarcada por 56 dias, a comandante pretende ser mãe em breve. “A carreira é sólida e oferece bons salários. Há a possibilidade de seis meses de convivência intensa. Então, eu penso, sim, em ser mãe”.