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01/03/2016 - 07h27
O comércio está desabando no melhor e pior dos mundos
Fonte: Guia Marítimo
Com exportações em rápida ascensão e importações colapsando, Brasil precisa se abrir para o comércio exterior


É o melhor e o pior dos tempos para o Brasil, segundo aponta o Relatório de Comércio da Maersk Line. Com as exportações em rápida ascensão e as importações colapsando, a tendência é que o Brasil se torne um país mais exportador do que importador, aponta o relatório. De acordo com João Momesso, Diretor de Trade da Maersk Line no Brasil, do ponto de vista dos armadores, hoje as operações são realizadas com prejuízo. “Pelos nossos números e os números do mercado que nós divulgamos, o volume da exportação caiu muito e o frete também. Então todos os armadores hoje estão operando com prejuízo e a gente precisa que algo seja feito para melhorar essa situação”.
Como na “crise” sempre é possível ver oportunidade, Momesso aponta as exportações como ponto positivo, já que o mercado continua em crescimento “seja pelo processo de conteinerização, seja pela desvalorização do real ou porque alguns mercados se abriram mais para a gente”. Entre eles, o executivo cita como exemplo o mercado de carga refrigerada, um nicho que a companhia é muito forte mundialmente, tanto que acabou de adquirir 30 mil novos contêineres para garantir aos seus clientes mais contêineres para exportação. “Falando de um mercado específico, a China, se abriu muito para a exportação da nossa pauta de proteína. A gente viu os números crescendo mais de 100% em volume. Então olhamos para esse mercado de exportação reefer em geral com bastante otimismo”, disse.
No segmento de cargas secas, Momesso também apontou o nicho com boas tendências de crescimento, porém ressaltou que a queda nas importações esbarra no fato da falta de contêiner no Brasil. “Isso faz com que a carga que tradicionalmente era precificada como frete de retorno – que era para levar esse contêiner de volta para a Ásia, por exemplo – tenha que ser precificada de uma nova maneira”.
Dessa forma, explica, os armadores são obrigados a trazer contêineres vazios de outras regiões, o que encarece muito mais o custo. “Junto com isso, dado que a importação teve uma queda de 85% no valor de frete nos últimos doze meses, ela não está mais pagando a conta, o que faz com que para que seja sustentável no médio prazo os armadores tenham que aumentar o frete da importação”, aponta.
No relatório produzido pela gigante dinamarquesa, aponta que a transição dificilmente será fácil em um cenário com tantos obstáculos para o país e para a indústria enquanto a menor tarifa de frete para contêineres de todos os tempos pode começar a limitar o crescimento econômico do Brasil no lado das exportações.
“O crescimento das exportações brasileiras está ameaçado já que há limites relativos à quantidade de armadores preparados para operarem com prejuízo seus serviços de entrada no país, uma vez que as tarifas de frete são as mais baixas de todos os tempos”, diz o Diretor Superintendente da Maersk Line no Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, Antonio Dominguez.
Para ele, o Brasil precisa olhar para novos mercados, buscar novos acordos comerciais e se abrir para o comercio exterior. “Agora com a queda do real, existe a oportunidade de se abrir para mercados que no passado não podia e se o País deixar passar esse momento vai perder essa oportunidade”. E alerta: “O Brasil tem que se abrir para o comércio exterior, tem que buscar rotas para fechar novos acordos com países do mundo inteiro. É preciso olhar para outros destinos”, disse, citando como exemplos países como Argentina e Chile que já estão procurando entrar em outros mercados. “O Brasil tem que fazer o mesmo”, ressalta.
Freio nas importações x Queda nos fretes
Segundo números preliminares do volume de mercadorias comercializado pela indústria de transportes marítimos fornecidos à Maersk Line pela consultoria Datamar, os dados de janeiro mostram que as importações despencaram quase 50% e as exportações saltaram 6% durante um mês considerado tipicamente tranquilo para o comércio exterior. O resultado compara-se ao quarto trimestre de 2015, quando o total de importações e exportações recuou 8,1%, valor muito maior do que o esperado. Naquele trimestre, as importações recuaram 30% e as exportações escalaram 14,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Segundo explica o Diretor de Trade da Maersk Line no Brasil, as grandes dificuldades trazidas pela queda da importação são visíveis ao analisar toda a cadeia logística do Brasil: as indústrias com volume menor de cargas e os consumidores comprando menos automóveis e eletrônicos – volume responsável por grande parte da queda nas importações.
“A grande dificuldade para nós – pensando na indústria da navegação – é que se o volume de importação não aumenta faz com que cheguem menos contêineres na costa, e ao chegar menos contêiner significa que você tem menos oportunidade de conteinerização ou para manter e conseguir entregar todo o potencial de exportação que a gente teria no país nesse momento, a gente teria que trazer contêineres de fora, e trazer contêiner de fora vem com um custo muito grande”.
Ainda segundo ele, do ponto de vista do armador, a baixa do volume da importação vem junto com a queda da tarifa. “Então para que seja suportável essa exportação, ela tem que pagar mais não só pelo aumento do custo de trazer um novo contêiner, mas pelo aumento de custo dado que a importação não paga mais pela parte que ela pagava anteriormente”, explica.
De acordo com o relatório da Maersk Line, já é mais barato enviar um contêiner de Hong Kong a Santos do que contratar um serviço de courier por moto para uma entrega, ida e volta, entre os aeroportos de Campinas e Guarulhos. Importar um contêiner da China ainda está mais barato do que enviar por Sedex uma caixa de 60 cm3, com três quilos, de São Paulo para Brasília.
Para Nestor Amador, Diretor Comercial da Maersk Line no Brasil, ao olharmos o ano de 2015 é possível ver uma queda de 30% na indústria durante o ano inteiro, mas ao olhar para o último trimestre do ano, a queda fica mais contingente e o número que nós temos é de mais ou menos 25%. Indo mais a fundo, ele cita a Costa Leste da América do Sul, mercado que, segundo ele, é muito importante especificamente quando o assunto são as importações da Ásia para a Costa Leste, onde a queda foi de mais ou menos 90%. “Nós temos um problema muito grande como indústria onde os fretes que temos hoje em dia não dão acessibilidade para os serviços que temos agora”.
Apesar do resultado negativo em todos os segmentos de produtos com perdas de dois dígitos que contribuíram para um declínio de 30% no volume total registrado no quarto trimestre, a África aparece como “uma luz no fim do túnel” com um incremento de 9,9% na demanda de bens produzidos, fator esse que para Momesso, pode ser percentualmente importante, mas em termos absolutos não significa nada. “É importante notar nesse caso a ordem de grandeza. A África de fato cresceu cerca de 10% no último trimestre, mas de uma base muito pequena. Por ordem de grandeza de cada 100 contêineres que vem da Ásia, 3 vem da África. Então um aumento de 10% aí é percentualmente importante, mas em termos absolutos ele não significa nada”, ressalta.
Desafios e Perspectivas para 2016
Para 2016, Momesso aponta algumas ações que já tem sido feitas e ressalta outras que precisam de mais rapidez e atenção. “Temos visto de fato melhorias no setor de terminais e alguns investimentos da iniciativa privada. Mas precisamos que essa velocidade aumente. A gente precisa que exista uma coordenação de fato entre inciativa privada e governo, as concessões de terminais continuam e precisam continuar em uma velocidade maior”, destaca.
O executivo aponta ainda que como usuário dos terminais e parte integrante da cadeia do exportador, existe um potencial gigantesco no País, porém alguns gargalos ainda aparecem no caminho e é preciso enfrentar. “Essa maior coordenação, esse maior alinhamento e um direcionamento bem estratégico é de extrema importância. E isso passa pelas concessões que são muito importantes, com destaque para as concessões da região norte, nordeste, que tem muito para se fazer ainda”, finaliza.
Amador reforça que “mesmo com todos os desafios, ainda vemos muita oportunidade. A Maersk continua com muita confiança no Brasil, continua investindo no País, mas precisamos que haja um balanço no mercado. E é importante que o Brasil olhe para o mundo e busque mais acordos comerciais”.