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09/12/2014 - 03h45
O lado bom da corrupção
Fonte: Época Negócios

Todo brasileiro sonha com a seguinte empreiteira para realizar obras públicas. Ela nunca se envolveu com financiamento de campanha, pois isso poderia comprometer a lisura das licitações; tem experiência reconhecida em projetos semelhantes; não tem, em seu rol de gerentes e diretores, ninguém que já foi condenado por qualquer tipo de crime.

Todo brasileiro sonha com a seguinte empreiteira para realizar obras públicas. Ela nunca se envolveu com financiamento de campanha, pois isso poderia comprometer a lisura das licitações; tem experiência reconhecida em projetos semelhantes; não tem, em seu rol de gerentes e diretores, ninguém que já foi condenado por qualquer tipo de crime.
A impressão que as operações anticorrupção deixam é que, nessas condições, sobrariam poucas empreiteiras para concorrer a obras públicas. Haveria, então, um dilema oculto no debate público suscitado pela Operação Lava Jato, que investiga relações corruptas entre a Petrobras e empreiteiras: será que é preciso tolerar um pouco (ou um tanto) de corrupção para não paralisar o país? Ao contrário do que políticos podem dizer publicamente, acabar com a corrupção traz um risco de atrasar obras de que os brasileiros precisam com urgência
Não se trata, é claro, de fazer apologia da corrupção. Tampouco de defender a impunidade e o uso de uma empresa semi-pública, como a Petrobras, para financiamento ilegal de campanha. Mas o combate à corrupção pode ter efeitos desagradáveis, como mostram os economistas Guilherme Lichand, Marcos Lopes e Marcelo Medeiros, no estudo “A corrupção faz bem para a saúde?”. Eles descobriram que as auditorias de gastos municipais com saúde realizadas pela Controladoria-Geral da União têm um efeito positivo para reduzir a corrupção – mas simplesmente porque os gestores locais passam a gastar menos!
Ao ficarem com medo de ser responsabilizados por atos corruptos (feitos por eles mesmos ou por pessoas que eles não conhecem), acabam diminuindo a provisão deste serviço público tão fundamental. Há menos corrupção, sem dúvida – mas também menos leitos em hospitais.
No mundo ideal, concorrentes impolutas substituiriam as empresas envolvidas em escândalos, sem perda de eficiência nas obras. Mas chegar a esse mundo (ou pelo menos mais perto dele), não é simples. E talvez o caminho mais sensato não seja demonizar empreiteiras e políticos.