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20/05/2016 - 05h23
País deve importar mais trigo dos EUA
Fonte: Valor Econômico


Depois de um início de ano marcado pelo intenso fluxo de trigo argentino para o mercado brasileiro, as importações do cereal nas próximas semanas devem vir de outras origens, sobretudo dos EUA. O motivo é que a Argentina está com estoques esgotados, e assim, os moinhos do Brasil terão de arcar com preços atualmente cerca de 20% mais caros do produto americano, ao menos até que a safra local – que chega em maior volume apenas em setembro – ajude a reabastecer a indústria.
"Os produtores argentinos tinham 4 milhões de toneladas de trigo ‘escondidos no colchão’, e venderam praticamente um milhão de toneladas por mês desde o início do ano, a maior parte ao Brasil", disse Christian Saigh, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo).
Segundo Saigh, o estoque dos moinhos brasileiros supre a demanda até o fim de julho ou início de agosto. A questão é que a Argentina não terá trigo até novembro, quando começa sua nova colheita. "Então, provavelmente, o Brasil terá de importar trigo americano entre setembro e novembro, para misturar com a safra brasileira". O trigo dos EUA posto no porto de Santos (SP) está em torno de US$ 288 a tonelada – já incluídos os 10% da Tarifa Externa Comum (TEC), cobrada do cereal de fora do Mercosul -, e o produto argentino, em US$ 240 a tonelada.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil produzirá 5,82 milhões de toneladas de trigo na safra atual – em fase de plantio -, alta de 5,3% ante o ciclo passado, prejudicado pelo clima adverso. Mas esse volume está longe da demanda anual de 11 milhões de toneladas, ainda mais se considerado que um milhão de toneladas devem ser exportadas.
Historicamente, a Argentina sempre foi o principal fornecedor de trigo para o Brasil, até que no ciclo 2013/14 a então presidente Cristina Kirchner restringiu a exportação para garantir o abastecimento interno. O Brasil teve de recorrer ao produto dos EUA até o fim do ano passado, quando o novo presidente do país vizinho, Mauricio Macri, zerou a tarifa de venda externa do cereal.
Em abril, as importações de trigo do Brasil cresceram 12,2%, em relação ao mesmo mês de 2015, para 455,98 mil toneladas, indicam dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), compilados pela Safras & Mercado. No acumulado do atual ano comercial (desde agosto de 2015), essas compras externas somam 3,99 milhões de toneladas, alta de 1,5% ante o mesmo período do ciclo anterior. A Argentina responde por 61,7% das importações, seguida por Paraguai (19,9%), Uruguai (10,3%) e EUA (8,1%).
Levando-se em conta o câmbio e os custos logísticos, o trigo da Argentina, do Paraguai e do Uruguai tem chegado ao Brasil a um preço próximo ou até inferior ao nacional, conforme Jonathan Staudt Pinheiro, analista da Safras & Mercado. "Esse patamar do dólar em R$ 3,50 está favorável [às importações]".
Nas contas da Safras, o Brasil precisa trazer do exterior 6,3 milhões de toneladas neste ano comercial. Assim, ainda devem ser importadas 2,3 milhões até julho. Essa necessidade vem no momento em que os moinhos enfrentam escassez de trigo de qualidade e uma disputa com a indústria de ração animal. Como o milho encareceu nos últimos meses, cresceu a demanda pelo trigo como substituto do grão na ração.
De todo modo, com o retorno da Argentina ao mercado, as margens dos moinhos brasileiros melhoraram neste início de 2016, em relação ao fim do ano passado, disse Saigh. Em 2015, os balanços das indústrias foram "catastróficos", devido à pressão de fatores como câmbio e energia elétrica. A redução da demanda também assustou: o consumo caiu pelo menos 10% em 2015, levando na esteira a queda da moagem. "Os balanços agora melhoraram pela redução de custos, e os preços de venda não foram mexidos", afirmou.
Mesmo assim, Saigh vê 2016 com margens ainda apertadas e uma possível retomada a partir de 2017. Para ele, a recuperação da produção argentina em 2016/17, de volta aos 15 milhões de toneladas de anos passados – em 2015/16, a previsão é de 11,3 milhões -, deve ajudar a normalizar o abastecimento no Brasil, evitando importações dos EUA em 2017.