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26/12/2016 - 04h33
Pioram previsões para desemprego em 2017
Fonte: Valor Econômico


As perspectivas para o mercado de trabalho se deterioraram ainda mais, levando à avaliação generalizada de que a taxa de desemprego em 2017 será mais alta do que se esperava há alguns meses. As projeções apontam para uma desocupação média na casa de 13% no ano que vem, acima dos cerca de 11,5% previstos para a média deste ano, devido à expectativa de uma recuperação mais lenta da economia e ao comportamento recente do emprego. Nos três meses encerrados em outubro, a taxa ficou em 11,8%, o equivalente a pouco mais de 12 milhões de pessoas.
A Tendências Consultoria Integrada, por exemplo, elevou a projeção para a taxa média de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2017 de 12,7% para 13,1%. A estimativa para a ocupação piorou significativamente, segundo o economista Thiago Xavier. A consultoria, que esperava estabilidade do emprego no ano que vem, aposta agora em recuo de 1,1%. Um ponto importante é que a ocupação tem recuado com força. Nos três meses encerrados em outubro, caiu 2,6% sobre igual período de 2015, queda expressiva. Para o acumulado deste ano, Xavier acredita que a queda do emprego será de 2,1% - antes, projetava uma baixa de 1,7%.
Um dos motivos para isso, na visão da Tendências, é que "a capacidade de absorção do mercado de trabalho informal, antes responsável por alocar parte da população que perdia o emprego celetista, tem sinalizado enfraquecimento". Em 2015, a queda do emprego com carteira assinada no setor privado, sem considerar trabalhadores domésticos, era compensada em grande medida pelo aumento das ocupações tradicionalmente ligadas à informalidade.
Esse movimento ajuda a explicar a estabilidade da ocupação no ano passado, além de ter limitado a magnitude da queda da população ocupada até os três meses encerrados em julho deste ano. "Contudo, a partir do trimestre finalizado em agosto, a população ocupada por conta própria passa a contribuir negativamente."
A economista da MCM Consultores Sarah Bretones também atribui a aceleração da queda na ocupação nos últimos meses ao esgotamento do que chama de "efeito precarização". Sua projeção para a contração no volume de ocupados no próximo ano é ainda pior, de 1,7%, com taxa média de desemprego de 13,2%. Para este ano, a estimativa de recuo é de 2%. "O fim do 'efeito precarização' nos surpreendeu. Esperávamos que isso acontecesse apenas em 2017", diz. Com o aprofundamento da recessão, ela pondera, mesmo as categorias informais de emprego estão deixando de ser opção vantajosa.
Essa reversão tem impactos para além dos indicadores de emprego, avalia o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. "Todo mundo pegou o Fundo de Garantia, virou 'empreendedor'. O negócio não deu certo e agora tem um monte de gente sem poupança, sem 'colchão'", diz ele, que espera desemprego médio de 13,5% em 2017.
Para 2016, Xavier, da Tendências, manteve a projeção para a taxa média de desemprego em 11,5% - a queda maior da ocupação foi compensada por um aumento menor da força de trabalho, de 1,6% previsto anteriormente para 1,2%. O menor crescimento da antiga população economicamente ativa alivia um pouco a taxa de desemprego.
A economista Ariana Zerbinetti, do Bradesco, também passou a projetar uma taxa de desemprego mais elevada em 2017. Para ela, a taxa média ficará em 12,9% no ano que vem - antes, esperava um número na casa de 12,5%. Ela lembra que o resultado negativo do PIB no terceiro trimestre levou vários analistas a reduzir as expectativas para o desempenho da economia em 2017 - o próprio Bradesco cortou a sua projeção de crescimento de 1% para 0,3%; no caso da Tendências, a queda foi de 1,5% para 0,7%.
Ariana destaca que os indicadores recentes apontam para nova retração da atividade no quarto trimestre, notando ainda a perda de fôlego nos índices de confiança. A retomada, portanto, é mais lenta do que se esperava, má notícia para o mercado de trabalho, que reage com defasagem ao que se passa na economia. Nesse cenário, Ariana acredita que a criação de empregos formais será mais modesta do que se imaginava antes, avaliando que as contratações vão superar as demissões em 150 mil vagas no ano que vem. Gonçalves, do Fator, é ainda mais pessimista, com saldo negativo de 600 mil postos formais em 2017 - depois das quase três milhões de vagas cortadas nos últimos dois anos.
Para 2016, a economista do Bradesco espera uma perda de 1,450 milhão de postos de trabalho. A taxa de desemprego, por sua vez, deve continuar em alta até o primeiro semestre do ano que vem, mantendo-se em nível elevado ao longo do segundo semestre.
A perda de empregos no setor informal, acrescenta Sarah, da MCM, é também responsável pelas quedas mais brandas que vêm sendo observadas na renda média real da Pnad Contínua - já que cada vez mais trabalhadores que recebiam menores remunerações vêm deixando suas ocupações. A mudança na tendência da ocupação levou a consultoria a revisar nos últimos meses a queda prevista para a renda de "mais de 3%" para 2,6%. Para 2017, a previsão de recuo para o rendimento médio real é de 2,1%. A massa salarial cairia 3,7%, já descontada a inflação, depois da queda de 4,5% esperada para 2016.
Sem perspectiva de recolocação, os brasileiros continuarão saindo do mercado de trabalho, migrando para a inatividade. A previsão para o aumento da força de trabalho em 2017 é de apenas 0,4%, após crescimento de 1,2% esperado para este ano. Até outubro, esse era o ritmo de crescimento da população em idade ativa, com mais de 14 anos, com alta de 1,5% da força de trabalho.