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23/10/2013 - 03h37
Portos – Educação e Inovação – STC Holanda Brasil
Fonte: Exame / Blog Brasil no Mundo

Quando falamos em portos no Brasil, de cara lembramos de gargalo logístico, falta de eficiência, mão de obra cara, falta de mão de obra qualificada, Custo Brasil, entre outras tragédias e desmandos políticos que tanto atrasam a competitividade brasileira no exterior.

Quando falamos em portos no Brasil, de cara lembramos de gargalo logístico, falta de eficiência, mão de obra cara, falta de mão de obra qualificada, Custo Brasil, entre outras tragédias e desmandos políticos que tanto atrasam a competitividade brasileira no exterior.
E para ajudar, ou atrapalhar, o Brasil tem uma nova legislação que ainda cria um novo complicador na competitividade nacional. A questão portuária deve ter uma atenção primordial, e o desenvolvimento de novas técnicas para a gestão portuária e principalmente, para a qualificação de alto nível da mão de obra portuária, em todos os níveis, hoje são prioridade zero no processo estratégico do país.
O Blog EXAME Brasil no Mundo conversou com Daniel Breda, representante da STC, a principal escola de logística e gestão portuária do mundo, com sede em Rotterdam na Holanda. Daniel Breda há dois anos representa no Brasil o STC-Group – Shipping and Transport College -, de Rotterdam. O STC é uma fundação sem fins lucrativos que atua em educação, treinamento, pesquisa e consultoria para todo o cluster marítimo, naval, portuário e de transportes em geral, de nível operacional à pós graduação. A chegada da STC no Brasil traz uma nova visão estratégica de ensino, qualificação e formação de mão de obra com alta tecnologia, além de desenvolver grandes projetos de consultoria naval, logística e portuária para as grandes companhias brasileiras.
Brasil no Mundo: Como você analisa o contexto da nova legislação de portos do Brasil? E comparativamente a outros países, quais os pontos fortes e fracos da legislação?
Daniel Breda: É possível dizer que a Lei 12.815/2013 teve um direcionamento cujo balanço é positivo, porém é muito difícil harmonizar uma macro-política com idiossincrasias locais, o que gerou uma série de contendas jurídicas com operadores em atividade e atritos com governos estaduais e/ou municipais. A liberalização do transporte de carga de terceiros foi um avanço fundamental, porém engatilhou uma avalanche de projetos desalinhados, pulverizados. Precisamos de concentração de esforços – e ganhos em escala. A questão da mão de obra é uma outra fragilidade. A nova lei desestimulou a criação de empregos formais, e expandiu um sistema que precisa ser melhor discutido.
Brasil no Mundo: Considerando sua experiência internacional nas áreas portuárias e de logística, como o Brasil está posicionado? O que ainda precisa ser desenvolvido e melhorado com urgência?
Daniel Breda: Eu prefiro colocar sob outro ponto de vista, o de que há no Brasil uma enorme experiência nestas áreas; esclarecimento e projetos para resolver os gargalos não faltam. Evidentemente, as tendências internacionais precisam ser cada vez mais incorporadas; e os caminhos para cooperação técnicas internacional também são conhecidos. Nos falta governança; seriedade na execução de projetos e visão de longo prazo. Melhoria de acessos, marítimos e terrestres; a manutenção de dragagem; a intermodalidade; o estímulo à cabotagem, às ferrovias e hidrovias; a implementação de novas tecnologias; e a desburocratização. Ouve-se isto em qualquer fórum de debates do setor no Brasil, de Norte a Sul. Há projetos e conversas para tudo isto, porém sua implementação é lenta, controversa, politizada e sem transparência.
Brasil no Mundo: O STC é considerada uma das maiores e melhores escolas de logística e gestão portuária do mundo. Como está sendo para você gerenciar a operação do STC no Brasil? Quais os grandes desafios?
Daniel Breda: O STC é o maior complexo educacional para o setor do mundo, com uma combinação única de atividades (portos, shipping, navegação, hidrovias, logística intermodal, indústria naval, petroquímica, offshore, dragagem, desde nível operacional à pós-graduação), além de presença global, atualmente em 5 países (Países Baixos, África do Sul, Omã, Vietnam, Filipinas e Brasil) e projetos realizados em mais de 90 países. Nós acreditamos profundamente na missão de trazer para o mercado brasileiro o expertise no desenvolvimento de recursos humanos; vivemos no Brasil gritante necessidade de investimentos em educação. Há uma receptividade muito grande no mercado, mas há vários fatores complicados, pois os custos de implementação dos projetos são altos – prestação de serviço sequer entrou na pauta do acordo de livre comércio Mercosul-EU – e ainda não é área de mais alta prioridade para as empresas. A cooperação com órgãos públicos também é bem intrincada.
Brasil no Mundo: O Brasil tem uma das piores posições em competitividade mundial, e um dos pontos é o do gargalo logístico. Que análise você faria, considerando uma mudança drástica da plataforma logística no país?
Daniel Breda: No último relatório do World Economic Forum, ficamos em 114 no quadro geral, nossas estradas em 120, ferrovias em 103, portos em 131, aeroportos em 123. Para compararmos, os Países Baixos estão, respectivamente, em 9, 10, 11, 1 e 4. Esta é a referência que eu quero ter como meta. Diversificar a matriz é urgente e fundamental. Ferrovias, hidrovias e cabotagem representam ganhos de escala e operacionais, investimentos mais baratos, e muito mais eficiência energética e ambiental.
Brasil no Mundo: Como você vê a mão de obra portuária hoje no Brasil? Que sugestões você recomenda para uma melhor qualificação da mão de obra?
Daniel Breda: Sempre digo que nosso investimento em mão-de-obra tinha que ter começado 20 anos atrás, pois sequer dispomos de trabalhadores com educação básica. E temos pouco tempo para correr atrás deste prejuízo. Em 15 anos nosso bônus populacional estará no fim. O portuário brasileiro está, em média, defasado. Precisamos rever as políticas de treinamento, que são muito concentradas em recursos públicos e por isto pouco dinâmicas. Os currículos disponíveis estão bastante defasados, e é preciso estimular a formação de instrutores na área. Precisamos de uma revolução em tecnologia educacional, simuladores, softwares de ensino. E desenvolver centros de treinamento de classe mundial, como o STC em Rotterdam. Existem alguns cases de sucesso no país e não há nada que impeça o nosso país de ter um ensino de alto padrão, como temos em algumas áreas. Basta haver governança e uma mudança na mentalidade empresarial, para enxergar treinamento como investimento.
Brasil no Mundo: Como a STC está presente no mundo? E quais os futuros projetos da STC no mundo e no Brasil?
Daniel Breda: As unidades internacionais do STC são, normalmente, joint-ventures com organizações locais, normalmente entidades governamentais. Alguns projetos financiados por grandes consórcios corporativos também ocorrem, partindo de empresas que compreendem o valor da mão de obra. O maior expertise do STC é, contudo, a transferência de conhecimento para as entidades com que trabalha, sejam sócias ou não. Assim, temos professores árabes, vietnamitas e filipinos oferecendo cursos de classe mundial em suas respectivas línguas. Pretendemos implementar esta experiência no Brasil. Estamos buscando auxiliar entidades públicas, mas também parcerias privadas. Estamos atendendo alguns grandes players como Vale, Transpetro e CSN e acreditamos no aprofundamento deste relacionamento. Creio que quanto mais competitivo o mercado, melhor para todos. Fechamos um convênio com ministério da educação do Chile recentemente e temos recebido muitos peruanos e colombianos em Rotterdam, além de realizarmos projetos no porto de Cartagena. Estamos prospectando oportunidades no Paraguai. A América do Sul hispânica tem tido um crescimento dinâmico que nos chama a atenção.

Daniel Breda
Formado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e com Mestrado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)/Universidade de Leiden (NL), Especialização em Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (em andamento). Trabalhou com gestão de museus e patrimônio, junto ao Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco (atual vice-presidente) e Fundação de Cultura do Estado de Pernambuco (FUNDARPE) e lecionou no curso de turismo da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO). Atuou como Representante Adjunto da Agência Comercial Holandesa no Recife, escritório vinculado aos Ministérios de Assuntos Exteriores e de Assuntos Econômicos do Governo da Holanda, promovendo negócios entre a Holanda e o Nordeste do Brasil. Há dois anos representa no Brasil o STC-Group – Shipping and Transport College -, de Rotterdam; o STC é uma fundação sem fins lucrativos que atua em educação, treinamento, pesquisa e consultoria para todo o cluster marítimo, naval, portuário e de transportes em geral, de nível operacional à pós graduação.