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24/11/2015 - 02h33

Propositura indecorosa

Fonte: AssCom Sindogeesp / Denise Campos De Giulio



O cidadão santista assistiu incrédulo a sessão realizada na Câmara Municipal de Santos, no último dia 16, na qual o vereador e presidente da Casa, Manoel Constantino (PMDB), apresentou uma inexplicável propositura concedendo ao ministro da Secretaria de Portos (SEP), Helder Barbalho, do mesmo partido, o título de Cidadão Emérito de Santos. 
 
Aprovada por maioria de votos, a honraria acabou gerando muita polêmica e descontentamento em diversos setores da população local, com destaque para o portuário, motivando inclusive o encaminhamento por parte das lideranças sindicais de expediente ao também vereador Benedito Furtado (PSB), requerendo seu voto contrário à proposta.
 
A missiva seguiu assinada pelos presidentes, do Sindicato dos Empregados na Administração Portuária (Sindaport), Everandy Cirino dos Santos, dos Operadores de Guindastes e Empilhadeiras (Sindogeesp), Guilherme do Amaral Távora, e dos Operários Portuários (Sintraport), Claudiomiro Machado. Juntas, as três entidades representam aproximadamente 7 mil trabalhadores do segmento, entre avulsos e vinculados.
 
A questionável homenagem acabou entrando na pauta dos principais programas de debates das emissoras de TV presentes na Baixada Santista, que não pouparam críticas ao presidente da Câmara Municipal. O jornal A Tribuna, que já havia antecipado o feito em nota intitulada "Ação entre Amigos", também repercutiu a indignação dos sindicatos portuários. Nas praças públicas, bares e rodas de bate-papo a toada não foi diferente. 
 
Apesar de confirmado, o regalo não deve ter agradado totalmente o vereador já que a proposta por ele inicialmente apresentada teve como objetivo uma deferência ainda maior, a de Cidadão Santista, título conferido a pessoas de ambos os sexos que, mesmo que não nascidas na cidade, dele se tornem merecedoras em razão dos relevantes serviços prestados, o que não é o caso do ministro.
 
Sendo um dos mais antigos e experientes políticos do legislativo local, o desavisado Constantino precisou ser alertado pela administração da Câmara da mancada, e de que tal prêmio somente pode ser atribuído para pessoas com, no mínimo, 20 anos de residência em Santos, o que, naturalmente, também não é o caso do ministro.
 
Na qualidade de representante do povo eleito democraticamente, antes de se expor no vexatório episódio deveria o presidente da Câmara Municipal se certificar quais e quantos foram os relevantes serviços prestados por Helder Barbalho ao município que justificassem sua condecoração. Saberia que, em verdade, nenhum.
 
Talvez a simples palestra proferida pelo ministro no Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de Santos, na manhã do dia último dia 22 de outubro, tenha sido o motivo de inspiração de Constantino, ou, depois disso, as reuniões mantidas com a direção da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), prefeitos, empresários e sindicalistas do setor. Quem sabe as rápidas visitas feitas por Barbalho e sua trupe a alguns terminais portuários, já no dia seguinte, quando deixou a ilha. Em resumo, nada que merecesse a cortesia ofertada pelo colega de legenda.
 
Vale lembrar que a agenda profissional, de pouco mais de 30 horas, fez parte da primeira e única visita a Santos do titular da SEP e foi exatamente esse o relevante legado deixado na rápida passagem. Com efeito, importante destacar que o anúncio de novos leilões para alguns terminais portuários do complexo local não pode ser atribuído a Barbalho, até porque já tinha sido feito por seu antecessor, o ex-ministro Edinho Araújo, o que significa dizer que essa também não pode ter sido a motivação maior para a láurea.
 
Nesse sentido, além de não ser autor de absolutamente nenhum feito relevante em prol da cidade, cabe a observação de que Helder Barbalho jamais pescou um único peixinho no Canal 1, muito menos no 2, 3 ou nos demais que cortam a cidade de Santos. Pode-se dizer o mesmo na beira do mar das belas praias do José Menino, Gonzaga, Boqueirão e Embaré, ou na extensa mureta da Ponta da Praia, reduto dos mais aficionados pescadores e “mentirosos” da cidade.   
 
Tampouco foi visto algum dia nas mesmas avenidas/canais subindo pelos galhos de alguma ingazeira para saborear o fruto que, apesar de sem graça, é típico e talvez o mais legítimo da terrinha fundada por Brás Cubas.
 
Em sua singular passagem por essas bandas, o filho de Jader Barbalho deixou de prestigiar e saborear a tradicional Meca Santista, prato oficial da cidade, bem como a famosa sopa de cebola do quase centenário Almeida, além do suculento pastel do Carioca, e entre outros o sempre obrigatório cafezinho no ponto de encontro da nata política e empresarial de Santos, o Café Paulista.
 
Não se pode esquecer de que os livros utilizados para registros de visitantes do Museu do Café, da Pinacoteca Benedito Calixto, Casa do Trem Bélico, Casa da Frontaria Azulejada, do belíssimo Museu de Arte Sacra, Outeiro de Santa Catarina, Panteão dos Andradas, Alfândega, Casarão do Tuiuti, nunca receberam sua assinatura. Os dos teatros Coliseu, Guarany e Municipal idem.
 
Provavelmente torcedor do Remo ou do Paissandu, o pupilo de Manoel Constantino voltou para Brasília ou para o Pará depois de passar longe da Vila Belmiro, do Museu Pelé, da “mais” Briosa e do Jabuca. É certo que jamais vivenciou um Barreiros x Juventude Nova Cintra, ou um Morávia x Bandeirantes, Ouro Preto x XI Santista, Pedra 90 x Toca da Onça, e tantos outros clássicos da várzea santista.
 
Também não se tem notícias de que algum dia tenha recebido as bênçãos do frei Rozântimo, no Santuário Santo Antônio do Valongo, ou do simpático padre Chiquinho, na São Judas Tadeu. Nenhuma Ave Maria ou Pai Nosso na Igreja do Embaré ou no Santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat, e nem mesmo uma única hóstia na imponente Catedral. Amém.
 
Talvez pela pouca idade (36), não desfrutou dos pecados da luxúria proporcionados pelas sempre atenciosas e sorridentes "moças de família" da Casa da Dona Ivone, no lendário 275 da Rua General Câmara, frequentada por homens de várias classes sociais, inclusive a política local. Ainda no campo da esbórnia, jamais quebrou pratos no Zorba's ou assistiu aos espetáculos musicais, shows eróticos, carnais e etc. nas boates Fugitivo, A Boneca, Love Story, Bier House, My Love, ABC House, Scandinávia e outras. Perdeu.
  
Em sua área de atuação, é bom que se diga que o homenageado, no cargo desde 6 de outubro, ainda está aprendendo a fazer o verdadeiro nó de marinheiro e sequer sabe o significado das palavras "lingada", "terno", "cavalo", "da maré", "fora de boca", "portaló", "mestria", "feitor" e outras. Jovem, também não teve a oportunidade de ser "apresentado" à cábrea Pará ou ao guindaste He-Man (não confundir com o desenho), às pedras de Tefé e Itapema, e muito menos aos lendários Ais Giorgis e Recreio.
 
Ainda sobre o Porto, importante salientar que o mais novo Cidadão Emérito de Santos também não prestigiou nenhum profissional de carreira da Codesp para os principais cargos da estatal, fato que desagradou os diversos agentes representativos que interagem no setor, em âmbito local.  
 
Claro está que nenhuma dessas observações, sérias ou irônicas, poderiam ser trazidas à baila ou servir de argumentos (como não serviram) para a não outorga da propositura, que lamentavelmente entra para a rica história da Câmara Municipal de Santos como uma das mais indecorosas e vergonhosas já aprovadas na Casa.
 
Por derradeiro, mesmo sendo um verdadeiro estranho nos ninhos, portuário e santista, Helder Barbalho se apresenta (pelo menos até o momento) como homem público sério, determinado, comprometido e disposto a superar os desafios que o setor exige, qualidades que lhe conferem condições de sobra para fazer jus ao título de Cidadão Emérito de Santos.
 
Bastava, portanto, merecê-lo e não apenas ganhá-lo como um simples presente de Natal dado pelo Papai "MaNoel" Constantino, ressalte-se, em nome do povo santista, que no triste episódio merecia um pouco mais de respeito e consideração. 
 
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