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04/03/2015 - 01h27
Recessão vai minar ganhos reais em acordos trabalhistas em 2015
Fonte: Brasil Econômico
Especialistas veem cenário adverso nas negociações de reajuste. No ano passado, ganhos de classes ficaram acima do INPC

Especialistas veem cenário adverso nas negociações de reajuste. No ano passado, ganhos de classes ficaram acima do INPC

O cenário adverso da economia este ano deve quebrar com um ciclo de 12 anos de ganhos reais em negociações trabalhistas no país. Muito além da previsão de retração em 0,50% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 — segundo projeção de analistas ouvidos pelo Banco Central para o Boletim Focus — o desaquecimento do mercado de trabalho, a aceleração da inflação e a perda de poder de compra das famílias são vistos por especialistas como indicadores negativos e que devem minar o poder de barganha dos sindicatos. A perfomance dos acordos deve ser até pior do que a de 2009, quando a crise financeira internacional abalou o Brasil.
Balanço do primeiro semestre de 2014 do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que 93,2% das categorias alcançaram reajustes salariais acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ficou em 6,23%. Já o aumento real médio ficou em 1,54%. A prévia do resultado do ano passado só foi inferior ao consolidado de 2012, quando 95,6% das categorias conseguiram recomposição salarial acima da inflação, com ganho real médio de 2,15%.
Embora o mercado de trabalho no país tenha perdido fôlego a partir do segundo semestre, o coordenador de Relações Sindicais do Dieese, José Silvestre, antecipa que o desaquecimento não se refletiu nas negociações trabalhistas. “A partir das análises preliminares dos dados parciais e do acompanhamento de diversas categorias, podemos dizer que o país fechou o ano melhor do que em 2013. Tanto na proporção de pessoas que obtiveram ganhos reais, quanto no tamanho médio do ganho real. O que aparentemente parece uma contradição em função das últimas pesquisas de projeção do PIB”, afirma.
O especialista acrescenta que o baixo nível de desemprego, medido pelo IBGE, foi determinante para garantir a valorização salarial. A taxa média de desocupação no país medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) ficou em 6,8%, abaixo dos 7,1% de 2013 e dos 7,4% de 2012.
No entanto, o saldo de vagas com carteira assinada registrado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no ano passado aponta para uma tendência pessimista. O resultado de 396.993 postos foi bem inferior ao de 2013, quando o país tinha alcançado 1,138 milhão.
“Na medida em que há uma piora da renda das famílias, com o aumento do desemprego, da inflação e dos juros, além da restrição ao crédito, os jovens ou a população que estavam no grupo dos não economicamente ativos passam a pressionar o mercado de trabalho, não mais tão dinâmico. Isso deve impactar em certa medida nas negociações”, avalia Silvestre, que projeta um resultado inferior ao ano de 2009. No período, 77% das categorias garantiram reajustes superiores à inflação. Já o ganho real ficou em apenas 0,70%.
Para o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), Rodrigo Leandro de Moura, os trabalhadores com dissídio a partir do meio do ano devem ser os mais prejudicados. Segundo Moura, com a aceleração do desemprego, que deve ocorrer de forma mais intensa neste primeiro semestre, o poder de barganha dos trabalhadores ficará limitado. “A construção civil e a indústria já estão demitindo e, agora, a perspectiva é a de que o setor de serviços contrate menos ou comece a demitir também”, diz ele.