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10/03/2017 - 09h55
Renda média do brasileiro só deve se recuperar em 2023
Fonte: DCI
Mesmo com um avanço econômico de 3,5% a partir de 2018, indicador deve demorar para atingir o patamar visto antes da crise; um dos resultados deve ser o enfraquecimento da classe média


No cenário previsto pelo governo federal, em que a economia cresce mais de 2% ao ano a partir de 2018, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita voltará ao patamar de 2013, anterior à crise, só em 2023.
A projeção foi elaborada por especialistas consultados pelo DCI e levou em conta a declaração feita por Henrique Meirelles na última terça-feira. O ministro da Fazenda disse que o crescimento potencial da economia brasileira deve ficar entre 2,2% e 2,5% nos próximos anos.
O PIB per capita, divisão de todos os bens do País pela quantidade de habitantes, diminuiu pela terceira vez consecutiva em 2016, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). Assim, ele acumulou queda de 9,1% desde 2014, chegando a R$ 30.407 por habitante, no ano passado.
Na prática, essa trajetória indica um "empobrecimento geral" do País, disse Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria. "Temos menos bens para serem divididos entre os brasileiros."
Uma das consequências desse fenômeno é a mudança de classe social por milhões de brasileiros que ascenderam nos últimos anos. "Os membros da classe média emergente podem recuar para a classe baixa", exemplificou Jensen.
Recuperação distante
Também na última terça-feira, Meirelles afirmou que a aprovação de medidas fiscais, como a reforma da Previdência, e a redução do tamanho do Estado podem acrescentar um ponto percentual à expansão possível da economia, que chegaria a 3,5% a partir de 2018. Ainda assim, a recuperação do PIB per capita continuaria distante.
"Só com um crescimento muito forte, de cerca de 5% ao ano, conseguiríamos voltar ao patamar de 2013 em menos tempo, talvez entre 2020 e 2021", sinalizou Istvan Kasznar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV). Segundo o especialista, a probabilidade de uma expansão desse tamanho ocorrer é muito pequena. Ele ressaltou que a fraqueza do consumo, uma das consequências da redução do PIB per capita, deve ser um dos obstáculos para uma disparada econômica.
Sobre as tendências de 2017, Kasznar projetou uma nova baixa na relação entre economia e população. "Os avanços esperados, de 0,7% para a atividade e de 0,8% para a população, causariam um recuo de 0,1% [no cálculo per capita]".
Conjuntura
A deterioração dos indicadores de emprego também prejudica a melhora do PIB per capita, ressaltaram os entrevistados. Isso porque, com menos pessoas trabalhando, o crescimento do País tende a ser menor.
A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mensal, divulgada em fevereiro pelo IBGE, mostrou que a taxa de desemprego chegou a 12,6% no trimestre encerrado em janeiro deste ano. No mesmo período do ano passado, ela estava em 9,5%.
E a recuperação do mercado de trabalho não deve acontecer tão cedo. "Essa retomada virá apenas depois que o PIB tiver um aumento sustentável, o que trará confiança para que os empresários voltem a contratar", afirmou Jensen.
Para que a economia brasileira, que agora não conta com o apoio do consumo, volte a avançar, os especialistas indicaram a realização de mais reformas pelo governo.
"As medidas atuais são fracas e não garantem um quadro melhor", disse Kasznar. Ele defendeu a sanção de projetos que reduzam o custo e a burocracia envolvidos com a criação de novas empresas.
Já Jensen advogou pela reforma tributária. "Temos que melhorar a eficiência do nosso sistema de impostos e torná-lo mais simples e progressivo."
Exemplo internacional
Nos últimos anos, parte do mundo enfrentou desafio semelhante ao do Brasil. Após a crise global de 2008, a economia de várias nações desenvolvidas despencou. Quase dez anos depois, alguns dados de países como Espanha e Itália parecem melhorar, mas o PIB per capita de ambos continua inferior àquele registrado antes da crise, de acordo com dados do Banco Mundial.
Os números mais recentes da instituição, referentes a 2015, mostram que outros países da União Europeia ainda não viram uma recuperação desse indicador. Entre eles, Alemanha, França e Reino Unido, as maiores economias do continente.
As taxas de desemprego dos europeus também são ruins. Na Espanha, por exemplo, 18,6% daqueles que procuraram trabalho, no último trimestre de 2016, não o encontraram. O número, entretanto, já foi pior: a taxa chegou perto dos 27% em 2012.