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25/09/2015 - 04h01
Sindicalistas questionam dados de pesquisa feita com avulsos
Fonte: A Tribuna On-line
Parte do estudo, realizado entre 2008 e 2011, tratou do consumo de drogas entre trabalhadores do Porto

Parte do estudo, realizado entre 2008 e 2011, tratou do consumo de drogas entre trabalhadores do Porto

Dirigentes de sindicatos dos trabalhadores avulsos do Porto de Santos querem mais informações sobre a pesquisa que tratou do consumo de drogas por integrantes dessas categorias. O levantamento, realizado pelo Campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre 2008 e 2011, apontou que cerca de 25% afirmaram ter usado crack ou cocaína e 34%, maconha. Além disso, apontou que 88% já consumiram bebidas alcoólicas.
Sindicalistas questionaram os resultados e pretendem conhecer a metodologia utilizada e quando, onde e como os questionários foram aplicados.
O levantamento é parte de uma pesquisa inédita desenvolvida pela instituição de ensino sobre as condições do trabalho portuário no cais santista. O estudo global originou o livro Porto de Santos - Saúde e Trabalho em Tempos de Modernização, lançado na Capital no último dia 2. As informações sobre o uso de entorpecentes são apresentadas em um dos capítulos da obra. Os demais tratam de temas como acidentes de trabalho, ergonomia e distúrbios relacionados à atividade profissional.
Reportagem de A Tribuna elaborada com base nos dados sobre o uso de drogas e, também, em entrevistas gravadas com pesquisadores foi publicada no último dia 15.
Os trabalhadores portuários avulsos (TPA) reúnem profissionais como estivadores, conferentes, consertadores, vigias, guindasteiros e trabalhadores do bloco, entre outros. Os resultados da pesquisa sobre álcool e drogas os desagradaram.
É o caso do presidente do Sindicato dos Operários Portuários (Sintraport), Claudiomiro Machado. Ele esteve na quarta-feira (23) em A Tribuna, acompanhado por seu vice, Robson Gama. e pelo presidente do Sindicato dos Empregados na Administração Portuária (Sindaport), Everandy Cirino dos Santos.
“Portuários e suas famílias, incluindo os filhos, foram ofendidos pela pesquisa e pela matéria. Nós e nossas famílias queremos retratação. Após isso, vamos nos aprofundar na pesquisa”, destacou o presidente do Sintraport, órgão que tem cerca de 4 mil associados, entre avulsos e vinculados.
Cirino pretende analisar os dados e discutir o levantamento. Para ele, a pesquisa falhou porque nem todos os sindicatos portuários foram procurados. “A primeira falha foi nós não termos sido consultados para sabermos quais eram as perguntas. Além disso, não acredito que um trabalhador portuário iria dizer que é viciado”.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Bloco de Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e São Sebastião (Sindbloco), Wilson Roberto de Lima, também não tomou conhecimento do estudo. Após colher informações com outros dirigentes da entidade, o sindicalista garante que nenhum trabalhador da categoria foi questionado por pessoas ligadas à Unifesp.
Hoje, são 410 trabalhadores no Bloco, com idades de 48 a 60 anos. Por isso, Lima acredita que não há usuários de álcool e drogas entre seus associados. Sobre a prevenção e o tratamento de dependentes químicos entre os TPA, ele afirma que o Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo) “é o responsável (por essas ações) e faz um bom trabalho”.
“O porto é centenário. Há 20 anos, tinha entre 23 mil e 24 mil trabalhadores e bate recorde todo ano. Então, dizer que uma empresa bate recorde todos os anos e, nela, boa parte é drogada, é complicado. É estranho”, afirmou.
Outro olhar
O presidente do Sindicato de Conferentes de Carga, Descarga e Capatazia do Porto de Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e São Sebastião, Marcos Sanches, disse que tomou conhecimento da pesquisa na época em que foi feita (entre 2008 e 2011), através dos trabalhadores.
“Eu acho que, se a pesquisa for verdadeira e estiver fundamentada dentro disso que foi apresentado na matéria, nós temos que começar a avaliar o trabalhador com um cuidado especial. Temos que ter uma solução para esse problema se realmente, efetivamente, ele existir. Se for comprovado que existe, nós temos que fazer trabalho social em cima disso. É o mínimo que se pode esperar da gente”, destacou o representante dos 460 conferentes do Porto de Santos.
Mesmo assim, Sanches acredita que, na sua categoria, “não há consumo de álcool e drogas”. O motivo é a faixa etária dos trabalhadores, de cerca de 55 anos.
A mesma opinião tem o presidente do Sindicato dos Consertadores de Carga e Descarga nos Portos do Estado de São Paulo, Adilson de Souza. Ele representa 75 consertadores, com uma média de 55 anos.
Para Souza, apesar de se tratar de um problema de saúde pública, o consumo de drogas não acontece na categoria. Mesmo assim, o sindicato se dispõe a promover atendimento especializado, caso tenha conhecimento do problema. “Já foi lançado o livro e, sobre todas as medidas legais pertinentes a nossa atividade e representatividade, nós iremos até as últimas consequências porque nós nunca podemos concordar, pela honra que a gente tem. Eu estou no Porto desde 1959. Estou na presidência, mas estou diariamente no Porto. E o que eu vejo que acontece não é nada disso. A pesquisa está totalmente fora da realidade”.
Já o vice-presidente do Sindicato dos Operadores em Aparelhos Guindastescos, Empilhadeiras, Máquinas e Equipamentos Transportadores de Carga dos Portos e Terminais Marítimos do Estado de São Paulo (Sindogeesp), Paulo Antonio da Rocha, aponta os efeitos de jornadas longas de trabalho e impactos causados por equipamentos como causadores de problemas de saúde entre os trabalhadores.
Sobre o consumo de drogas, Rocha garante que há encaminhamento, desde que a entidade seja notificada por parentes ou pelo próprio trabalhador, mas os casos são raros. “Eu acho que nós temos coisas mais abrangentes que vão, sim, depois desencadear no porque o trabalhador foi para as drogas. Aí, talvez caia nesse ponto das aposentadorias precoces, o lado meio depressão dele, porque não está trabalhando e não pode exercer aquela função que exerceu durante tantos anos. Nisso, sim, é fundamental a gente focar”.
Ogmo
Procurado, o Ogmo comunicou que desconhece a pesquisa, assim como os questionários, a metodologia usada e os parâmetros utilizados na captação e na interpretação dos dados. Apesar da negativa, a colaboração de funcionários da entidade foi citada nos agradecimentos do livro.
Mas o Ogmo informou que realiza ações de conscientização, prevenção e acompanhamento da saúde e da segurança dos trabalhadores e das operações, além de dispor de um departamento de medicina e saúde ocupacional, que realiza exames periódicos nos trabalhadores.
Procurado, o presidente do Sindicato dos Estivadores (Sindestiva), Rodnei Oliveira da Silva, se negou a comentar a pesquisa.