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21/06/2013 - 00h51
Trabalhadores assumem comando de fábrica, mas herdam dívidas e processos
Fonte: Valor Econômico
Quando a direção da Picchi Indústria Metalúrgica, de Salto (SP), aceitou entregar aos empregados o comando dos negócios, em agosto de 2002, os trabalhadores se sentiram aliviados. Depois de 60 dias de greve por atraso de salários, pareciam ter encontrado a solução para manter a fábrica em atividade e, consequentemente, os empregos. Os 87 funcionários que aceitaram o desafio mal sabiam, no entanto, a avalanche de problemas que viria pela frente. Quinze dias depois da criação da Metalcoop, a cooperativa que ocupou o lugar da Picchi, surgiu a primeira surpresa: a energia elétrica foi cortada por falta de pagamento.
"Foi um balde de água fria", diz Mauro Alves Martins, presidente do conselho de administração. As dívidas com contas de luz somavam mais de R$ 400 mil. A energia não havia sido cortada antes, descobriram os trabalhadores, por força de liminares obtidas na Justiça pela antiga direção da empresa.
Com dinheiro que tiraram do próprio bolso os trabalhadores conseguiram juntar o suficiente para pagar a primeira parcela da nova dívida, negociada com a concessionária de energia. "Cada um colaborou com mais ou menos R$ 400", lembra Mauro Martins.
A empresa não chegou a falir, mas pediu a suspensão da inscrição estadual. Foi quando surgiu uma nova surpresa para os cooperados. Aos poucos, eles perceberam que os antigos donos haviam aberto diversas inscrições. Com dívidas espalhadas, a reputação da empresa estava manchada, o que obrigou os novos donos a fazer todas as compras à vista.
A situação piorou quando começaram a aparecer os processos trabalhistas de empregados que haviam deixado a empresa. O acordo com os antigos donos previa o arrendamento das instalações pelos cooperados. Mas, diante dos processos trabalhistas, a Justiça penhorou os bens e iniciou um processo de leilões.
A essa altura, a Metalcoop já havia conseguido recuperar os principais clientes. O grande passo veio com a conquista de certificados de qualidade, como o ISO 9001, uma exigência das multinacionais que compravam da Metalcoop. O novo quadro também deu aos cooperados a chance de começar a contratar novos funcionários para o comando de áreas importantes, como vendas e outras que perderam profissionais na época em que a empresa anterior foi à ruína.
Cada leilão trazia momentos de tensão. Se não conseguissem arrematar o equipamento os cooperados não teriam como continuar o trabalho. "O dinheiro voltava para a empresa com a compra dos ativos", diz Martins.
A necessidade de reforçar o caixa da empresa surgiu, em 2008, diante de um novo problema. O prazo para o uso do prédio da fábrica, fixado no contrato para terminar em 2012, chegava ao fim. "Foi quando começou o namoro com o BNDES", lembra Martins.
As instalações da fábrica, porém, foram a leilão antes de a cooperativa concluir a negociação do empréstimo. Três diretores da Metalcoop arriscaram participar do leilão, mas não imaginavam que apareceria um concorrente Uma empresa do setor imobiliário estava de olho no local, mas a cooperativa ofereceu o maior lance: R$ 5,4 milhões, R$ 200 mil mais que o outro concorrente, divididos em 36 parcelas. Mesmo sem recursos naquele momento, os cooperados calcularam que o prazo longo, de três anos, lhes daria algum fôlego.
Restava, contudo, enfrentar mais um leilão, o dos equipamentos que haviam sobrado. Desta vez, a Metalcoop contou com a ajuda do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que emprestou R$ 1,65 milhão.
A soma da dívida com a compra das instalações mais o empréstimo do sindicato somava praticamente os R$ 7 milhões pedidos ao BNDES. Os cooperados da Metalcoop só conseguiram respirar, tranquilos, em agosto de 2011, nove anos após a criação da cooperativa, quando foi liberado o financiamento do BNDES. "Acertamos o fluxo de caixa e pagamos a dívida com o sindicato do ABC", diz Martins.