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28/11/2014 - 10h53
Trajetória do vereador Benedito Furtado é contada em livro
Fonte: AssCom Verador Benedito Furtado / Maria Inês Alonso Notari

Considerações sobre o autor
Ex-Portuário, combativo líder sindical, comandante de greves que paralisaram o porto de Santos em plena ditadura militar, jornalista, vereador da Câmara Municipal de Santos em seu sexto mandato, pelo PSB, Benedito Furtado de Andrade, é nascido em Sobral, Ceará, há 64 anos, numa família típica nordestina. Ele é o caçula do clã e, muito cedo, enfrentou perdas, dores e lacunas que são temas presentes em versos e reflexões reunidos nesta obra.
O livro é um retrato, com cheiros e cores, de seu sentimento do mundo, delírios, fantasias, alegrias e decepções em várias épocas de vida. "Os sons e as imagens criaram raízes, longas e profundas na parede da minha memória", diz Furtado ora em doces e singelas reminiscências, outras, devastadoras confidências de amores mal resolvidos, incompreensões, atitudes insanas, e os descompassos da vida.
O próprio autor responde de onde vem a inspiração: "da sensível percepção da emoção, do sofrer, da dor, do pavor, do ódio, do amor e do desamor, da ilusão e da desilusão, da saudade, da alegria e da tristeza, do falar e do calar, do permanecer, do fugir e do ficar ..."
Francisca Amélia de Andrade, a mãe, morreu quando Benedito Furtado tinha apenas 2 anos. "Como pode um filho não lembrar da mãe, viver com a dor e não ter a lembrança? Conviver com o vazio doloroso e sem a imagem? Chorar por décadas por uma saudosa fantasia?", questiona em "Memórias".
E de forma, quase didática vai desfilando suas alegrias e tormentos, como observador atento de pessoas e de ambientes, traçando o mapa das desigualdades e desilusões, como em Apocalipse onde desabafa sua decepção com tramas, seduções e ódio. "Bárbaros modernos. Conflitos, atritos, detritos. Os abutres imperam. A bondade padece".
O desencanto também aparece em "Que Herança Restará aos Nossos? : A vida escorre : tripudiada, resiste frágil. A balança da Justiça apresentou defeito, pende apenas para o lado imperfeito. O fraco."
Não por acaso tornou-se socialista na vida adulta, e não sem razão voltou seu olhar preferencial, no Legislativo, para as comunidades pobres e esquecidas de Santos. Tudo tem a ver com suas raízes e a convicção de que "a vida é bela quando é bem vivida e de que o homem sorri, quando não sofre".
O pai Raimundo Furtado de Andrade, viúvo, casou-se novamente e o novo lar não foi nem um pouco harmônico. Passou, ao lado dos irmãos, por tanto desamor e violências, que acabou sendo acolhido pelo avô, homem sábio, que lhe deu bons exemplos de vida, carinho e os melhores anos de sua infância em Massapê, pequena cidade do Ceará.
Nos versos, Massapê, traz as lembranças da infância, cheiros, frutas, bichos, bicas nas chuvas torrentes, sol escaldante, pássaros e a Maria Fumaça. "Por Massapê, perambulo radiante, Minha memória só traz felicidade: por lá vejo meu velho avô em seu pijama listrado: belo, vigoroso, disciplinador, letrado. Repousando em sua cadeira de balanço, feita em vime. No alpendre da saudosa Cartucha, nosso abrigo inesquecível".
Fala também dos tempos da inocência que hoje trazem lágrimas saudosas e de um trem majestoso e fumegante. "Sob o sol escaldante que castigava o solo rachado, O suave apito, ao longe, anunciava a sua aproximação. O longo e largo rabo de fumaça visto do quintal, mais parecia uma bela nuvem em formação".
Furtado revela um coração dividido. Adora Santos, terra que o acolheu, quando tinha 12 anos, "menino arisco e ressabiado". Aqui teve estudos, sustento e um bom lar na casa dos tios Cecília e Francisco . Mas quando pisa em solo cearense, repleto de luz e cor, sabe que sua terra natal o abraça acolhedora. "É certo que sou árvore de duas raízes. Uma lá longe. Outra, cá perto. Ambas, no entanto, fortemente fincadas".
Em Santos, ainda adolescente trabalhou como servente e ascensorista na Santa Casa de Santos. Foi ainda costurador de sacos de café, estivador, comerciário e auxiliar de escritório, até ingressar, em 1973, na Companhia Docas de Santos. O Porto passava a moldar e atiçar o seu caráter combativo.
Furtado diz que foi o carinho de Cecília, ("que abrandou a revolta") e figuras disciplinadoras como o tio Francisco, os ensinamentos da primeira escola local, Docas de Santos (Magali, a professora, o anjo das primeiras linhas, e Carolina, hoje nome de rua, a severa diretora) que alicerçaram a base de seu caráter. O ambiente portuário completou sua formação.
Bom de briga, presidiu em quatro gestões consecutivas o Sindicato dos Empregados na Administração Portuária e integrou a diretoria de inúmeras entidades e movimentos sociais, entre os quais o Comitê Brasileiro de Anistia e o Movimento de Cultura Popular.
Nos últimos anos concentrou grande parte de sua vida ativa à causa animal. É autor de inúmeras leis que colocaram Santos na vanguarda da proteção animal e participou ativamente da instalação de serviços que hoje oferecem qualidade de vida aos animais domésticos e demais espécies. Os bichos são também graciosos personagens de seus poemas.
Tem como principal colaboradora Marília Asevedo, sua companheira de mais de 30 anos, musa de muitos versos e reflexões. Conheceu a companheira quando cursava a Faculdade de Comunicação - Facos, na década de 70. Naquela época, chegaram a namorar, mas cada qual seguiu seu caminho, cada qual num casamento, ambos de pouca duração. O reencontro veio em 1983 e perdura até os dias de hoje, como revela em Trajetória : "Amor infinito, respeito infinito, amizade infinita. Duas vidas, em uma vida. Até o fim".
Furtado é pai de Pedro e Bruno, nascidos de seu primeiro enlace, grandes paixões, referências em seus escritos. E há dois anos reconheceu Fabiano, 39 anos, residente no Sul do País, nascido de um breve caso de amor juvenil. Uma reconciliação com seu passado.
Ler os poemas, e demais textos, de Benedito Furtado é fazer uma deliciosa, e por vezes dramática, viagem à sua mente permanentemente reflexiva e questionadora.

